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14 setembro 2016

Parábola do "filho pródigo" sob a ótica de 3 Papas

A parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32) é uma das parábolas de Jesus mais conhecidas. Sua mensagem é sempre atual e, por isso, vale a pena refletir sobre ela. 

E, para que haja o melhor entendimento da mensagem de Jesus, eu escolhi postar aqui os ensinamentos de 3 papas: João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Em diferentes ocasiões, eles analisaram essa parábola. E por terem diferentes óticas, as idéias dos três se complementam e propiciam verdadeiras lições de vida e de fé. Inicialmente, compartilho as observações de Bento XVI quanto ao nome dado à parábola:
"Esta, que é talvez a mais bela parábola de Jesus, é conhecida com o nome de "parábola do filho pródigo". De fato, a figura do filho perdido é tão impressionantemente descrita, e o seu destino, tanto no bem como no mal, vai tão diretamente ao coração, que ela deve aparecer como o centro autêntico do texto. A parábola, porém, tem na realidade três personagens principais. J. Jeremias e outros propuseram que seria melhor designá-la como a parábola do Pai bondoso — Ele seria o autêntico centro do texto. P. Grelot, por sua vez, chamou a atenção para a figura do segundo irmão como totalmente essencial e, a partir disso, era da opinião — com razão, parece-me — de que a designação mais adequada seria "a parábola dos dois irmãos". Isso resulta em primeiro lugar da situação à qual a parábola responde. Ela é em S. Lucas assim representada: "Todos os publicanos e pecadores vinham ter com Ele, para O escutarem. Os fariseus e os escribas irritaram-se e disseram: Ele se dá com os pecadores e até come com eles" (Lc 15,ls). Encontramos aqui dois grupos, dois "irmãos": publicanos e pecadores; fariseus e escribas. Jesus responde-lhes com três parábolas: com a das 99 ovelhas que ficaram em casa e a ovelha perdida; com a parábola da dracma perdida; e, finalmente, acrescenta outra e diz "um homem tinha dois filhos" (Lc 15,11). Trata-se, portanto, dos dois. Com isto, o Senhor agarra uma tradição muito antiga: a temática dos dois irmãos percorre todo o Antigo Testamento, a começar com Caim e Abel, passando por Ismael e Isaac, até Esaú e Jacó, e espelha-se de um outro modo de novo na relação dos 11 filhos de Jacó no que se refere a José. Na história das eleições domina uma notável dialética entre os dois irmãos, que permanece no Antigo Testamento como uma questão aberta. Jesus retomou esta temática numa nova hora da ação de Deus na história e imprimiu-lhe um novo rumo. Em S. Mateus encontra- se um texto semelhante à nossa parábola dos dois irmãos: um declara que quer fazer a vontade do pai, mas não a realiza; o outro diz não à vontade do pai, mas depois se arrepende e realiza aquilo de que tinha sido encarregado (Mt 21,28-32). Também aqui se trata da relação dos pecadores e dos fariseus; também aqui o texto, em última instância, apela a um novo sim para o chamado de Deus."(pgs. 179-180)"1.
Interessante, não é mesmo? 

Passemos, agora, às considerações sobre a estória e seus personagens. Eu optei  por não transcrever a passagem de Lucas 15, 11-32 pois a análise abaixo, de Bento XVI, praticamente conta a estória. Mas, se quiser ler os versículos bíblicos basta clicar aqui
Assim, nesta homilia feita pelo Papa Bento XVI, ele narra a parábola enfocando a liberdade, e mostrando o que é viver verdadeiramente:
"Neste Evangelho aparecem três pessoas: o pai e os dois filhos. Mas por detrás das pessoas aparecem dois projetos de vida bastante diferentes. Ambos os filhos vivem em paz, são agricultores abastados e, portanto, têm do que viver, vendem bem os seus produtos e a vida parece ser boa.

Todavia, gradualmente o filho mais jovem julga esta vida tediosa, insatisfatória: não pode ser esta, pensa ele, toda a vida: levantar todos os dias, digamos, às 6 horas e depois, segundo as tradições de Israel, uma oração, uma leitura da Bíblia Sagrada, e depois ir trabalhar e no final novamente uma oração. Assim, dia após dia, ele pensa: mas não, a vida é mais do que isto, devo encontrar outra vida, em que eu seja verdadeiramente livre, possa fazer o que me agrada; uma vida livre desta disciplina e destas normas dos mandamentos de Deus, das ordens do pai; gostaria de estar a sós e ter a vida inteira totalmente para mim, com todas as suas belezas. Agora, contudo, é só trabalho...
E assim decide pretender todo o seu patrimônio e partir. O pai é muito atencioso e generoso, e respeita a liberdade do filho: é ele que deve encontrar o seu projeto de vida. E, como diz o Evangelho, ele parte para uma terra muito distante. É provável que fosse distante geograficamente, porque deseja uma mudança, mas também interiormente, porque quer uma vida totalmente diversa.

Agora a sua ideia é: liberdade, fazer tudo o que quero, ignorar estas normas de um Deus que está distante, não permanecer no cárcere desta disciplina da casa, fazer tudo o que é bonito, aquilo que me agrada, levar a vida com toda a sua beleza e a sua plenitude.
E num primeiro momento poderíamos talvez pensar por alguns meses tudo corre bem: ele acha bom ter finalmente alcançado a vida, sente-se feliz. Mas depois, pouco a pouco, sente também aqui o tédio, também aqui é sempre o mesmo. E no final permanece um vazio cada vez mais inquietador; faz-se cada vez mais vivo o sentimento de que esta ainda não é a vida, ao contrário, continuando com todas estas coisas, a vida afasta-se cada vez mais. Tudo se torna vazio: também agora se repropõe a escravidão de fazer as mesmas atividades. E no final inclusive o dinheiro termina, e o jovem julga que o seu nível de vida é inferior ao dos porcos.
Então, começa a refletir e pergunta se era realmente aquele o caminho da vida: uma liberdade interpretada como fazer tudo o que quero, viver, levar a vida só para mim, ou se ao contrário não seria talvez mais vida, viver pelos outros, contribuir para a construção do mundo, para o crescimento da comunidade humana... Assim começa o novo caminho, um caminho interior. O jovem reflete e considera todos estes novos aspectos do problema e começa a ver que era muito mais livre em casa, sendo também ele proprietário, contribuindo para a construção da casa e da sociedade em comunhão com o Criador, conhecendo a finalidade da sua vida, adivinhando o projeto que Deus tinha para ele. Neste caminho interior, neste amadurecimento de um novo projeto de vida, vivendo depois também o caminho exterior, o filho mais jovem põe-se a caminho para regressar, para recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho empreendido era errado. Devo partir de novo com outro conceito, diz ele, devo recomeçar.

E chega à casa do pai, que lhe tinha deixado a sua liberdade para lhe dar a possibilidade de compreender interiormente o que é viver, o que é não viver. O pai abraça-o com todo o seu amor, oferece-lhe uma festa e a vida pode começar de novo, a partir desta festa. O filho compreende que precisamente o trabalho, a humildade, a disciplina de cada dia cria a verdadeira festa e a verdadeira liberdade. Assim regressa a casa interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver.

Sem dúvida, também no futuro a sua vida não será fácil, as tentações voltarão, mas ele já está plenamente consciente de que uma vida sem Deus não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o porquê, falta o grande sentido do ser homem. Ele entendeu que só podemos conhecer Deus com base na sua Palavra. (Nós, cristãos, podemos acrescentar que sabemos quem é Deus através de Jesus, no qual nos foi mostrado realmente o rosto de Deus). O jovem compreende que os Mandamentos de Deus não são obstáculos para a liberdade e para uma vida bela, mas são os indicadores da vereda pela qual caminhar para encontrar a vida. Entende que também o trabalho, a disciplina, o comprometer-se não por si mesmo mas pelos outros amplia a vida. E precisamente este esforço de se comprometer no trabalho dá profundidade à vida, porque se experimenta a satisfação de ter, no final, contribuído para fazer crescer este mundo, que se torna mais livre e mais bonito.

Agora não gostaria de falar do outro filho, que ficou em casa, mas na sua reação de inveja vemos que interiormente também ele sonhava que seria, talvez, muito melhor tomar todas as liberdades. Também ele, no seu íntimo deveria "voltar para casa" e compreender de novo o que é a vida, entender que só se vive verdadeiramente com Deus, com a sua Palavra, na comunhão da própria família, do trabalho; na comunhão da grande Família de Deus."2

Sábias palavras essas do Papa Emérito! Passemos, agora, às particularidades de cada um dos personagens desta parábola:


Filho pródigo

João Paulo II faz uma análise do jovem pródigo:

"A herança que o jovem tinha recebido do pai era constituída por certa quantidade de bens materiais. Mas, mais importante do que esses bens era a sua dignidade de filho na casa paterna. A situação em que veio a encontrar-se quando se viu sem os bens materiais que dissipara, é natural que o tivesse também feito cair na conta da perda dessa dignidade. Quando pediu ao pai que lhe desse a parte de herança que lhe tocava, para se ausentar para longe, não refletiu por certo nisso. Parece que nem mesmo agora está bem consciente dessa realidade, quando diz para si próprio: «Quantos jornaleiros na casa de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome!». Avalia-se a si mesmo pela medida dos bens que tinha perdido e que já «não possui», enquanto os criados na casa de seu pai «continuam a possuí-los». Estas palavras exprimem principalmente a sua atitude perante os bens materiais. No entanto, por detrás delas esconde-se também o drama da dignidade perdida, a consciência da condição de filho malbaratada. 
É então que toma a decisão: «Levantar-me-ei, irei ter com o meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus jornaleiros» [Lc 15,18 s]. Tais palavras permitem descobrir mais profundamente o problema essencial. Através da complexa situação material de penúria a que o filho pródigo chegou, por causa da sua leviandade, por causa do pecado, amadureceu nele o sentido da dignidade perdida. Quando tomou a decisão de voltar para a casa paterna e de pedir ao pai para ser recebido, não já gozando dos direitos de filho, mas na condição de assalariado, o jovem parece à primeira vista agir por motivo da fome e da miséria em que caiu. Subjacente a esse motivo, porém, está a consciência de perda mais profunda: ser um assalariado na casa do próprio pai é com certeza grande humilhação e vergonha. Apesar disso, o filho pródigo está disposto a arrostar com tal humilhação e vergonha. Caiu na conta de que já não tem mais direito algum, senão o de ser um empregado na casa do pai. Esta reflexão, brota em primeiro lugar da plena consciência da perda que mereceu e do que, doutro modo, poderia vir a possuir. Este raciocínio, precisamente, demonstra que, no âmago da consciência do filho pródigo, se manifesta o sentido da dignidade perdida, daquela dignidade que brota da relação do filho com o pai. Com essa decisão empreendeu o caminho de regresso."3
Papa Francisco mostra que essa dignidade de filho vem do amor do pai:
"«Já não sou digno de ser chamado teu filho...»(v. 19). Mas esta expressão é insuportável para o coração do pai, que ao contrário se apressa a devolver ao filho os sinais da sua dignidade: a roupa bonita, o anel, o calçado. (...) O abraço e o beijo do seu pai levam-no a entender que foi sempre considerado filho, não obstante tudo. Este ensinamento de Jesus é importante: a nossa condição de filhos de Deus é fruto do amor do coração do Pai; não depende dos nossos méritos, nem dos nossos gestos, e portanto ninguém no-la pode tirar, nem sequer o diabo! Ninguém nos pode privar desta dignidade. 4
Filho mais velho

Bento XVI faz uma análise do filho mais velho:
"Agora entra em ação o filho mais velho. Ele regressa a casa vindo do trabalho no campo, ouve a festa em casa, informa-se acerca da causa da festa e fica muito zangado. Ele não pode simplesmente achar justo que a este vadio que dissipou com prostitutas toda a sua fortuna — o bem do Pai —, agora, sem prova nem tempo de penitência, imediatamente e com brilhante esplendor, lhe seja oferecida uma festa. Isto contradiz o seu sentido de justiça: uma vida de trabalho, que ele passou, parece sem importância perante o indecente passado do outro. Fica cheio de amargura: "Há tantos anos que te sirvo e nunca transgredi um sequer dos teus mandamentos", diz para o pai, "e nunca me deste nem sequer um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos" (Lc 15,29). Também com ele foi ter o pai, e agora lhe fala cheio de bondade. O irmão mais velho não sabe nada a respeito da mudança interior e das peregrinações do outro, do caminho para o longínquo afastamento, da sua ruína e do seu reencontrar-se. Ele só vê a injustiça."1
Papa Francisco chama de soberba a atitude desse filho:
"Quando alguém se sente justo — «Eu fiz sempre tudo bem...» —, o Pai vem de igual modo procurar-nos, porque aquela atitude de se sentir justo não é boa: é a soberba! Vem do diabo."6
E fala que esse filho mais velho também precisa da misericórdia do pai: 
"Ele permaneceu sempre em casa, mas é muito diverso do pai! As suas palavras carecem de ternura: «Há muitos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma... E agora que voltou este teu filho» (vv. 29-30). Vemos o desprezo: nunca diz «pai», nunca diz «irmão», só pensa em si mesmo, gaba-se de ter permanecido sempre ao lado do pai e de o ter servido; e no entanto nunca viveu esta proximidade com alegria. E agora acusa o pai porque nunca lhe deu um cabrito para fazer festa. Coitado do pai! Um filho foi embora e o outro nunca permaneceu realmente próximo dele! O sofrimento do pai é como o do Deus, o de Jesus quando nos afastamos ou porque vamos embora ou porque estamos perto mas sem o estar deveras.
Também o filho mais velho precisa de misericórdia. Inclusive os justos, aqueles que se julgam justos, têm necessidade de misericórdia. Este filho representa cada um de nós, quando nos perguntamos se vale a pena labutar tanto, se depois nada recebemos em troca. Jesus recorda-nos que não permanecemos na casa do Pai para receber uma recompensa, mas porque temos a dignidade de filhos corresponsáveis. Não se trata de «negociar» com Deus, mas de seguir Jesus que se entregou incondicionalmente na cruz."4 
Pai

O Papa Bento XVI, realça a atitude do pai de sempre ir ao encontro dos filhos:
"notamos que quando aparece o filho mais velho indignado pelo acolhimento festivo reservado ao irmão, é sempre o pai que lhe vai ao encontro e sai para o suplicar: «Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu» (Lc 15, 31)"7.
E percebe a semelhança das palavras do pai com as palavras de Jesus:
"Meu Filho, tu estás sempre comigo", diz-lhe o pai, "tudo o que é meu é também teu" (Lc 15,31). Ele lhe explica assim a grandeza de ser filho. São as mesmas palavras com as quais Jesus, na oração sacerdotal, descreve a sua relação com o Pai: "Tudo o que é meu é teu e o que é teu é meu"(p.179)1. 
São João Paulo II enfatiza a fidelidade do amor do pai:
"O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em recebê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa."3
Papa Francisco realça a atitude amorosa do Pai para com o filho:
"Jesus não descreve um pai ofendido e ressentido, um pai que por exemplo diz ao filho: «Vais pagar»: não, o pai abraça-o, espera por ele com amor. Ao contrário, a única coisa que o pai quer é que o filho esteja diante dele, são e salvo, é o que o torna feliz, e por isso faz festa. A recepção do filho que volta é descrita de modo comovedor: «Ainda estava longe, quando o seu pai o viu e, movido de compaixão, correu ao seu encontro, lançou-se ao seu pescoço e beijou-o» (v. 20). Quanta ternura; viu-o de longe: o que significa isto? Que o pai subia continuamente ao terraço para perscrutar a estrada a ver se o filho voltava; aquele filho que tinha feito de tudo, mas o pai esperava-o. Como é bonita a ternura do Pai! (...) O abraço e o beijo do seu pai levam-no a entender que foi sempre considerado filho, não obstante tudo."4  

Da interação desses três personagens da parábola, podemos tirar lições sobre o relacionamento com Deus e com o Próximo:


Lições sobre relacionamento com Deus 

1) A mensagem de Jesus é de esperança:
"Esta palavra de Jesus anima-nos a nunca desesperar. Penso nas mães e nos pais em apreensão quando veem os filhos afastar-se seguindo por caminhos perigosos. Penso nos párocos e catequistas que às vezes se interrogam se o seu trabalho foi em vão. Mas penso também em quantos estão na prisão e têm a impressão de que a sua vida acabou; naqueles que fizeram escolhas erradas e não conseguem olhar para o futuro; em todos os que têm fome de misericórdia e perdão, e julgam que não o merecem... Em qualquer situação da vida, não devo esquecer que nunca deixarei de ser filho de Deus, filho de um Pai que me ama e espera a minha volta. Até na pior situação da vida, Deus espera-me, Deus quer abraçar-me, Deus aguarda-me."4
2) Independentemente de se pensar e/ou agir como o filho pródigo ou como o filho mais velho, Deus permanece sempre fiel em seu amor:
"Deus continua a considerar-nos seus filhos quando nos perdemos, e vem ao nosso encontro com ternura quando voltamos para Ele. E fala-nos com tanta bondade quando nós pensamos que somos justos. Os erros que cometemos, mesmo se forem grandes, não afetam a fidelidade do seu amor. "6
"cada um de nós é aquele filho que esbanjou a própria liberdade, seguindo ídolos falsos, miragens de felicidade, e perdeu tudo. Mas Deus não se esquece de nós, o Pai nunca nos abandona. É um Pai paciente, espera-nos sempre! Respeita a nossa liberdade, mas permanece sempre fiel. E quando voltamos para Ele, acolhe-nos como filhos na sua casa, porque nunca, nem sequer por um momento, deixa de esperar por nós com amor. E o seu coração rejubila com cada filho que volta para Ele. Faz festa, porque é alegria. Deus tem esta alegria, cada vez que um de nós, pecadores, vamos ter com Ele e pedimos o seu perdão. Qual é o perigo? É que nós presumimos que somos justos e julgamos os outros. Julgamos até Deus, porque pensamos que Ele deveria castigar os pecadores, condená-los à morte, em vez de perdoar. Então sim que corremos o risco de permanecer fora da casa do Pai! Como aquele irmão mais velho da parábola, que em vez de ficar feliz porque o seu irmão voltou, irrita-se com o pai que o recebeu e faz festa. Se no nosso coração não há misericórdia, a alegria do perdão, não estamos em comunhão com Deus, ainda que observemos todos os preceitos, porque é o amor que salva, não apenas a prática dos preceitos. É o amor a Deus e ao próximo que dá cumprimento a todos os mandamentos. E este é o amor de Deus, a sua alegria: perdoar. Ele espera-nos sempre! Talvez alguém no seu coração tenha algum peso: «Mas eu fiz isto, fiz aquilo...». Ele espera-te! Ele é Pai: espera-nos sempre!"8
3) A relação com Deus se constrói através de uma história:
"este texto evangélico tem o poder de nos falar de Deus, de nos fazer conhecer o seu rosto, melhor ainda, o seu coração. Depois de Jesus nos ter narrado acerca do Pai misericordioso, as coisas já não são como antes, agora conhecemos Deus: Ele é nosso Pai, que por amor nos criou livres e dotados de consciência, que sofre se nos perdemos e faz festa se voltamos. Por isso, a relação com Ele constrói-se através de uma história, analogamente a quanto acontece a cada filho com os próprios pais: no início depende deles; depois reivindica a própria autonomia; e por fim – se há um desenvolvimento positivo –chega a um relacionamento maduro, baseado no reconhecimento e no amor autêntico.Podemos ler nestas etapas também momentos do caminho do homem na relação com Deus. Pode haver uma fase que é como a infância: uma religião movida pela necessidade, pela dependência. À medida que o homem cresce e se emancipa, quer libertar-se desta submissão e tornar-se livre, adulto, capaz de se regular sozinho e de fazer as próprias escolhas de modo autónomo, pensando até que pode viver sem Deus. Precisamente esta fase é delicada, pode levar ao ateísmo, mas também isto, com frequência, esconde a exigência de descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Felizmente, Deus nunca falta à sua fidelidade e, mesmo se nós nos afastamos e nos perdemos, continua a seguir-nos com o seu amor, perdoando os nossos erros e falando interiormente à nossa consciência para nos chamar a si. Na parábola, os dois filhos comportam-se de modo oposto: o menor vai embora de casa e cai muito em baixo, enquanto o maior permanece em casa, mas também ele tem um relacionamento imaturo com o Pai; de facto, quando o irmão volta, o maior não é feliz como o pai, ao contrário irrita-se e não quer entrar em casa. Os dois filhos representam dois modos imaturos de se relacionar com Deus: a rebelião e a hipocrisia. Estas duas formas superam-se através da experiência da misericórdia. Só experimentando o perdão, só reconhecendo-nos amados por um amor gratuito, maior do que a nossa miséria, mas também maior do que a nossa justiça, entramos finalmente num relacionamento deveras filial e livre com Deus."4
4) Deus nos acolhe no sacramento da confissão:
"No sacramento da confissão podemos sempre recomeçar de novo a vida: Ele acolhe-nos, restitui-nos a dignidade de seus filhos. Portanto, redescubramos este sacramento do perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a vida verdadeira."2 

Lições sobre relacionamento com o próximo


1) O homem é uma criatura capaz de fazer o bem2
"não é uma "mónada", uma entidade isolada que vive somente para si mesma e deve ter a vida unicamente para si própria. Pelo contrário, nós vivemos com os outros, fomos criados com os outros e somente permanecendo com os outros, entregando-nos aos outros, encontramos a vida. O homem é uma criatura na qual Deus imprimiu a sua imagem, uma criatura que é atraída no horizonte da sua Graça, mas é também uma criatura frágil, exposta ao mal; porém, capaz de bem. E finalmente o homem é uma pessoa livre."2
2)  A lógica humana é diferente da lógica de Deus:
"«Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Convinha, porém, fazer festa...» (vv. 31-32). Assim diz o Pai ao filho mais velho. A sua lógica é a da misericórdia! O filho mais jovem pensava que merecia um castigo por causa dos seus pecados, e o filho mais velho esperava uma recompensa pelos seus serviços. Os dois irmãos não falam entre si, vivem histórias diferentes, mas ambos raciocinam segundo uma lógica alheia a Jesus: se fizeres o bem, receberás uma recompensa, se fizerem o mal serás punido; esta não é a lógica de Jesus, não!"4
3) O pecado traz dor; o perdão, alegria.
"A decisão do filho mais novo de se emancipar, esbanjando os bens recebidos do pai e vivendo de maneira dissoluta (cf. Lucas 15, 13), é uma descarada renúncia à comunhão familiar. O afastamento da casa paterna exprime bem o sentido do pecado, com o seu carácter de ingrata rebelião e as suas consequências também humanamente dolorosas. Diante da escolha deste filho o raciocínio humano, expresso de algum modo no protesto do filho mais velho, teria aconselhado a severidade de uma adequada punição, antes de uma plena reintegração na família.
Mas ao contrário o pai, ao vê-lo de longe que retornava, vai ao seu encontro cheio de comoção (ou melhor, «agitando-se nas suas entranhas», como diz literalmente o texto grego: Lc 15, 20), estreita-o num abraço de amor e quer que todos lhe façam festa.
A misericórdia paterna é ressaltada mais ainda quando este pai, ao censurar com ternura o irmão mais velho que reivindica os próprios direitos (cf. ibidem, 15, 29 s.), o convida ao comum banquete de alegria. A pura legalidade é superada pelo generoso e gratuito amor paterno, que supera a justiça humana e convoca os dois filhos a sentarem-se mais uma vez à mesa do pai."9
4) A fraternidade traz alegria ao Pai.
"O pai recuperou o filho perdido e agora pode inclusive restituí-lo ao seu irmão! Sem o filho mais jovem, também o filho mais velho deixa de ser um «irmão». A maior alegria para o pai é ver que os seus filhos se reconheçam irmãos."4
5) A misericórdia do pai é modelo para os confessores:
"Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia."5 


Concluindo esta postagem da parábola do Filho pródigo, deixo  a mensagem de Papa Francisco: 

"Jesus chama todos nós a seguir este caminho: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lc6, 36). Agora, peço-vos algo. Em silêncio, todos pensemos... cada um pense numa pessoa com a qual não está bem, com a qual está irritado, da qual não gosta. Pensemos naquela pessoa e em silêncio, neste momento, oremos por essa pessoa, sejamos misericordiosos para com aquela pessoa. [silêncio de oração]."8



Notas

1. Ratzinger, Joseph (Bento XVI), Jesus de Nazaré: Primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.
2. Papa Bento XVI, homilia (18 de Março de 2007). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2007/documents/hf_ben-xvi_hom_20070318_istituto-penitenziario.html
3. Papa João Paulo II Carta Encíclica Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30111980_dives-in-misericordia.html
4. Papa Francisco. Audiência Geral (11 de maio de 2016). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2016/documents/papa-francesco_20160511_udienza-generale.html
5. Papa Francisco, Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia(11 de abril de 2015). Disponível em :https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html
6. Papa Francisco, Angelus (6 de março de 2016). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2016/documents/papa-francesco_angelus_20160306.html
7. Papa Bento XVIAngelus (14 de março de 2010). Disponível em:  http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2010/documents/hf_ben-xvi_ang_20100314.html 
6. Papa João Pauo II, Audiência (20 de setembro de 2000). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/2000/documents/hf_jp-ii_aud_20000920.html  
7. Papa Bento XVI, Angelus (12 de setembro de 2010). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2010/documents/hf_ben-xvi_ang_20100912.html 
8. Papa Francisco, Angelus(15 de setembro de 2013). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2013/documents/papa-francesco_angelus_20130915.html
9. Papa João Paulo II, Audiência:"Creio na remissão dos pecados" (8 de setembro de 1999). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1999/documents/hf_jp-ii_aud_08091999.html

22 junho 2010

Confissão frequente


Dizia Santo Afonso Maria de Ligório:
“Não falamos aqui das confissões das pessoas incursas em pecados mortais. Entretanto não deixaremos de dar muitos avisos concernentes às ocasiões próximas e às confissões sacrílegas.Mas queremos falar principalmente das confissões das almas timoratas, que amam a perfeição e procuram purificar-se cada vez mais das manchas dos pecados veniais.
UTILIDADE DA CONFISSÃO FREQÜENTE
Refere Cesário que um santo sacerdote mandou da parte de Deus a um demônio que lhe tinha aparecido, lhe dissesse o que mais o maltratava; e o inimigo lhe respondeu que nada o contrariava nem o desgostava tanto, como a confissão freqüente. – Mas ouçamos o que Jesus Cristo disse a Sta. Brígida: “Aquele que quer conservar o fervor, deve purificar-se freqüentemente com a confissão na qual se acuse de todos os seus defeitos e negligências em servir-me.” – Cassiano ensina que a alma que aspira à perfeição, deve cuidar de ter uma grande pureza de consciência, porque assim é que se adquire o perfeito amor de Deus, que não se dá senão às almas puras; de sorte que o divino amor corresponde à pureza do coração.
- É preciso, porém entender que nos homens, segundo o estado presente, esta pureza não consiste em uma isenção absoluta de toda a falta; porque, exceto nosso divino Salvador e sua divina Mãe, não houve nem haverá no mundo nenhuma alma sem suas manchas. Todos nós nascemos em pecado e caímos em muitas faltas, diz S. Tiago.
- Consiste em duas coisas, que são velar atentamente para que não entre no coração nenhuma falta deliberada, por leve que seja, e ter cuidado de purificar-se imediatamente de qualquer falta que nele possa ter entrado.
- Estes são justamente os dois bons efeitos que produz a confissão freqüente.
Primeiramente, pela confissão freqüente, uma pessoa se purifica das manchas contraídas. – A este propósito, narra S. João Clímaco que um jovem, desejando corrigir-se da má vida, que levava no século, foi-se fazer religioso em certo mosteiro. Antes de recebê-lo, o abade quis prová-lo; e lhe disse que, se queria ser admitido, fosse confessar em público todos os seus pecados. Deveras resolvido a se entregar inteiramente a Deus, o jovem obedeceu; mas, enquanto expunha suas faltas diante da comunidade, um santo religioso que fazia parte desta, viu um homem de aspecto venerando, que a medida que o moço ia declarando seus pecados, os apagava de um papel que tinha na mão, onde estavam escritos; de sorte que, acabada a confissão, todos estavam apagados.
O que, neste caso, aconteceu visivelmente, sucede invisivelmente toda a vez que um se confessa com as devidas disposições.
A confissão, porém, além de purificar a alma de suas máculas, dá-lhe também força para não recair. - Segundo o doutor angélico, a virtude da penitência faz que a falta cometida seja destruída e também que não volte mais.
- A tal propósito S.Bernardo refere um fato da vida de S. Malaquias.Uma mulher tinha o hábito de se impacientar e de se irritar a tal ponto que se tornara insuportávelS. Malaquias, ouvindo dela mesma que nunca se houvera confessado de tais impaciênciasexcitou-a a fazer uma confissão exata dessas faltasDepois disto, tornou-se tão paciente e tão branda, que parecia incapaz de se enfadar por qualquer trabalho ou mau trato que a importunasse.É por isso que muitos santos, para adquirirem a pureza de consciência, costumavam confessar-se todos os dias. Assim praticavam Sta. Catarina de Senna, Sta. Brígida, a Beata Collecta, e também S.Carlos Borromeo, Sto. Inácio de Loiola e muitos outros. S. Francisco de Borgianão se contentava com uma só vez, confessava-se duas vezes por dia.
Se os homens do mundo tem horror de aparecer com uma mancha no rosto diante de seus amigosque se há de estranhar que as almas amigas de Deus procurem purificar-se cada vez mais, para se tornarem cada vez mais agradáveis aos olhos de Nosso Senhor.- De resto, não pretendemos aqui obrigar as religiosas que freqüentam a comunhão, a confessar-se toda a vez que comungam. Entretanto é conveniente que se confessem duas vezes ou ao menos uma vez por semana, e além disso quando houverem cometido alguma culpa com advertência.
DO EXAME, DA DOR OU CONTRIÇÃO E DO BOM PROPÓSITO
- Sabe-se que, para fazer uma boa confissão, três coisas se requeremO exame de consciência,a dor de ter pecado, e o propósito de se corrigir.
1. Quanto ao exame, aos que freqüentam os sacramentos, não é necessário que quebrem a cabeça em indagar todos os pormenores das faltas veniais. É preferível que se apliquem mais a descobrir as causas e raízes de seus apegos e de suas negligências.Digo isto para as religiosas que vão se confessar, com a cabeça cheia de coisas ouvidas na grade, e não fazem outra coisa que repetir, de cada vez, a recitação das mesmas faltas, como uma cantilena, sem arrependimento e sem propósito de emenda.Para as almas espirituais, que se confessam amiúde e tem cuidado de evitar os pecados veniais deliberados, o exame não exige muito tempo; pois não têm necessidade de indagar sobre as faltas graves, porque se a sua consciência estivesse sobrecarregada de um só pecado mortal, este se daria logo a conhecer por si mesmo. Quanto aos pecados veniais, se fosse plenamente voluntários, se manifestariam também de um modo sensível de pena que causariam; aliás não há obrigação de confessar todas as faltas leves que se tem na consciência, e por conseguinte também não há obrigação de fazer um exame exato e menos ainda de escrutar o número e circunstâncias, ou se recordar como e porque se cometeram.Basta declarar as faltas leves que pesam mais e são mais opostas a perfeição, e acusar as outras em termos gerais.
Quando não há matéria certa depois da confissão última, diga-se algum pecado da vida passada, de que se tenha mais dor, por exemplo: Eu me acuso especialmente de todas as culpas cometidas no passado contra a caridade, a pureza ou a obediência.
- É bastante consolador o que sobre este ponto escreve S. Francisco de Sales: “Não vos inquieteis, se não vos lembrardes de todas as vossas faltinhas para confessá-las; porque assim como muitas vezes cais sem advertência, assim também muitas vezes vos levantareis sem percebê-lo; a saber, pelos atos de amor ou outros atos bons que as almas devotas soem fazer“.
2. É necessária, em segundo lugar, a dor ou contrição, e é o que se requer principalmente para obter a remissão dos pecados. As confissões mais longas não são as melhores, mas as em que há mais dor. O sinal de uma boa confissão, diz S. Gregório, não se acha no grande número de palavras do penitente, mas no arrependimento que demonstra.
- De resto, as religiosas que se confessam amiúde e tem horror até as culpas veniais, desfazem as dúvidas se tem ou não verdadeira contrição. Quereriam, cada vez que se confessam, ter lágrimas de enternecimento; e como apesar dos seus esforços e de toda a violência que fazem, não podem tê-las, estão sempre inquietas sobre suas confissões. É preciso que se persuadam que a verdadeira dor não está em senti-la mas em querê-la. Todo o mérito das virtudes está na vontade. É por isso que Gerson, falando da fé, assegura que aquele que quer crer, algumas vezes tem mais mérito do que aquele que crê.
- Mas S. Tomás ensinou a mesma coisa antes dele, falando precisamente da contrição. Diz ele que a dor essencial, necessária para a confissão, é a detestação do pecado cometido, e que esta dor não está na parte sensitiva, mas na vontade; visto que a dor sensível é um efeito do desprazer da vontade o que nem sempre está em nosso poder, porque a parte inferior nem sempre segue a parte superior.
Assim, pois, toda a vez que, na vontade, a displicência da culpa cometida é acima de todos os males, a confissão é boa.
Abstende-vos, portanto, de fazer esforços para sentir a dor. – Falando dos atos internos, sabei que os melhores são os que se fazem com menor violência e maior suavidade, visto que o Espírito Santo ordena tudo com doçura e tranqüilidade.
Pelo que, o santo rei Ezequias, falando do arrependimento que tinha de seus pecados, diziasentir deles dor muito amarga mas em paz.
Quando quiserdes receber a absolvição, fazei assim: No aparelhar-vos para a confissão, começai por pedir a Jesus Cristo e a Virgem das Dores uma verdadeira dor de vossos pecados; em seguida fazei brevemente o exame, como acima dissemos; e depois, para a contrição, basta que façais um ato como este: “Meu Deus, eu vos amo acima de todas as coisas; espero, pelos merecimentos do sangue de Jesus Cristo, o perdão de todos os meus pecados, dos quais me arrependo de todo o coração, por ter ofendido e desgostado a vossa infinita bondade, e os aborreço mais do que todos os males; e uno este meu aborrecimento ao aborrecimento que deles teve o meu Jesus no horto de Getsêmani. Proponho não vos ofender mais, com a vossa graça“.Uma vez que tenhais querido pronunciar este ato com sinceridade, ide tranqüilamente receber a absolvição, sem temor e sem escrúpulo. - Sta. Teresa para tirar as angústias a este respeito, dava um outro bom sinal de contrição: “Vede, dizia ela, se tendes um verdadeiro propósito de não cometer mais os pecados que ides confessar. Se tendes este propósito, não duvideis de ter também a verdadeira dor“.
3. É necessário enfim o bom propósito. O propósito exigido para a confissão, para ser bom, deve ser firme, universal e eficaz.Primeiramente, deve ser firme. Há alguns que dizem: eu não quereria cometer mais este pecado; eu não quereria mais ofender a Deus. – Mas ai! este eu quereria denota que o propósito não é firme. Para que o seja, é necessário dizer com vontade resoluta: Não quero mais ofender a Deus deliberadamente.Em segundo lugar, deve ser universal, isto é, deve o penitente propor-se a evitar todos os pecados sem exceção. Isto, porém, só se entende dos pecados mortais.
Quanto aos pecados veniais, basta, para o valor do sacramento, que o arrependimento e o propósito recaiam sobre uma só espécie de pecado; mas as pessoas mais espirituais devem propor se evitar todos os pecados veniais deliberados; e quanto aos indeliberados, visto que é impossível evitá-los todos, basta que se proponham fazê-lo quanto for possível.Em terceiro lugar, deve ser eficaz, isto é, capaz de determinar o penitente a empregar os meios necessários para não cometer mais as faltas de que se acusa, e especialmente a fugir das ocasiões próximas de recair. Por ocasião próxima se entende aquela em que a pessoa caiu muitas vezes em pecados graves, ou, sem justa causa, induziu outros a caírem.Neste caso não basta propor-se somente evitar o pecado, mas é necessário também propor tirar a ocasião, aliás as suas confissões serão todas nulas, embora receba mil absolviçõespois não querer remover a ocasião próxima de pecado grave já é por si culpa grave. E assim como temos demonstrado na nossa obra de teologia moral, quem recebe a absolvição sem o propósito de tirar a ocasião próxima, comete um novo pecado mortal de sacrilégio.”
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Fonte: Volta para casa

"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12
CEFAS, oriundo do nome de São Pedro apóstolo, significa também um Acróstico: Comunhão para Evangelização, Formação e Anúncio do Senhor. É um humilde projeto de evangelização através da internet, buscando levar formação católica doutrinal e espiritual.