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12 dezembro 2016

Oração de São João Paulo II à Virgem de Guadalupe

Hoje, a Igreja Católica celebra a festa de Nossa Senhora de Guadalupe.  E, para comemorar essa data, compartilho aqui a oração feita por São João Paulo II para ela:


"Ó Virgem Imaculada, 
Mãe do verdadeiro Deus e Mãe da Igreja!
Vós, que, deste lugar, manifestais
a vossa clemência e a vossa compaixão 
por todos os que imploram o vosso amparo: 
ouvi a oração que com filial confiança Vos dirigimos 
e apresentai-a ao vosso Filho Jesus, único Redentor nosso.
Mãe de misericórdia, Mestra do sacrifício escondido e silencioso, 
a Vós, que vindes ao encontro de nós todos, pecadores, 
consagramos, neste dia, todo o nosso ser e todo o nosso amor. 
Consagramo-Vos também a nossa vida, 
os nossos trabalhos, as nossas alegrias, 
as nossas doenças e os nossos sofrimentos.
Dai a paz, a justiça e a prosperidade aos nossos povos, 
já que tudo o que nós temos e o que somos 
o deixamos ao vosso cuidado, 
Mãe e Senhora nossa,
Queremos ser totalmente vossos 
e convosco desejamos percorrer 
o caminho de uma fidelidade plena a Jesus Cristo 
na sua Igreja: 
não nos deixeis desprender da vossa mão amorosa.
Virgem de Guadalupe, Mãe das Américas, 
pedimo-Vos por todos os Bispos, 
a fim de que eles conduzam os fiéis 
por veredas de intensa vida cristã, 
de amor e de humilde serviço a Deus e às almas.
Contemplai esta seara imensa 
e intercedei por que o Senhor infunda fome de santidade 
em todo o Povo de Deus 
e conceda abundantes vocações de sacerdotes e religiosos 
fortes na .fé 
e zelosos dispensadores dos mistérios de Deus.
Concedei aos nossos lares 
a graça de amarem e respeitarem a vida nascente, 
com o mesmo amor com que Vós em vosso seio concebestes 
a vida do Filho de Deus.
Virgem Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, 
protegei as nossas famílias, 
para que elas estejam sempre muito unidas, 
e abençoai a educação dos nossos filhos.
Esperança nossa, 
olhai-nos com compaixão 
ensinai-nos a ir continuamente para Jesus 
e, se cairmos, ajudai-nos 
a levantarmo-nos e a voltarmos para Ele, 
mediante a confissão das nossas culpas e dos nossos pecados 
no sacramento da Penitência que traz sossego à alma.
Suplicamo-Vos que nos concedais 
um amor muito grande a todos os santos Sacramentos 
que são como que as marcas que o vosso Filho 
nos deixou na terra.
Assim, nossa Mãe Santíssima, 
com a paz de Deus na consciência,
com os nossos corações livres do mal e de ódios, 
poderemos levar a todos 
a alegria verdadeira e a verdadeira paz, 
as quais vêm do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo 
que, com Deus Pai e com o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos.
Ámen."


Fonte: Papa João Paulo II, Oração do Santo Padre à Nossa Senhora de Guadalupe (México, Janeiro de 1979). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1979/january/documents/hf_jp-ii_spe_19790125_preghiera-guadalupe.html


09 dezembro 2016

Mensagem às Mulheres

Na "Carta do Papa João Paulo II às Mulheres", o Santo Papa faz um ato de agradecimento às mulheres. Por considerá-lo bonito, eu o compartilho aqui:
"(...) gostaria agora de me dirigir diretamente a cada mulher, para refletir com ela sobre os problemas e perspectivas da condição feminina no nosso tempo, detendo-me em particular sobre o tema essencial da dignidade e dos direitos das mulheres, considerados à luz da Palavra de Deus.
O ponto de partida deste diálogo ideal não pode ser senão um obrigado (...)
O obrigado ao Senhor pelo seu desígnio sobre a vocação e a missão da mulher no mundo, torna-se também um concreto e direto obrigado às mulheres, a cada mulher, por aquilo que ela representa na vida da humanidade.
Obrigado a ti, mulher-mãe, que te fazes ventre do ser humano na alegria e no sofrimento de uma experiência única, que te torna o sorriso de Deus pela criatura que é dada à luz, que te faz guia dos seus primeiros passos, amparo do seu crescimento, ponto de referência por todo o caminho da vida.
Obrigado a ti, mulher-esposa, que unes irrevogavelmente o teu destino ao de um homem, numa relação de recíproco dom, ao serviço da comunhão e da vida.
Obrigado a ti, mulher-filha e mulher-irmã, que levas ao núcleo familiar, e depois à inteira vida social, as riquezas da tua sensibilidade, da tua intuição, da tua generosidade e da tua constância.
Obrigado a ti, mulher-trabalhadora, empenhada em todos os âmbitos da vida social, econômica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dás à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, a uma concepção da vida sempre aberta ao sentido do « mistério », à edificação de estruturas econômicas e políticas mais ricas de humanidade.
Obrigado a ti, mulher-consagrada, que, a exemplo da maior de todas as mulheres, a Mãe de Cristo, Verbo Encarnado, te abres com docilidade e fidelidade ao amor de Deus, ajudando a Igreja e a humanidade inteira a viver para com Deus uma resposta "esponsal", que exprime maravilhosamente a comunhão que Ele quer estabelecer com a sua criatura.
Obrigado a ti, mulher, pelo simples facto de seres mulher! Com a percepção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas.(...)"

Fonte: Carta do Papa João Paulo II às Mulheres (29 de junho de 1995). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1995/documents/hf_jp-ii_let_29061995_women.html

27 novembro 2016

o que é o inferno?

Vale a pena ler e aprender com esta catequese de São João Paulo II sobre o inferno.

"O inferno como rejeição definitiva de Deus
   
1. Deus é Pai infinitamente bom e misericordioso. Mas o homem, chamado a responder-Lhe na liberdade, pode infelizmente optar por rejeitar de maneira definitiva o Seu amor e o Seu perdão, subtraindo-se assim, para sempre, à alegre comunhão com Ele. Precisamente esta trágica situação é apontada pela doutrina cristã, quando fala de perdição ou inferno. Não se trata de um castigo de Deus infligido a partir do exterior, mas do desenvolvimento de premissas já postas pelo homem nesta vida. A própria dimensão de infelicidade que esta obscura condição traz consigo, pode ser de algum modo intuída à luz de algumas das nossas terríveis experiências, que tornam a vida, como se costuma dizer, um «inferno».
Em sentido teológico, contudo, o inferno é outra coisa: é a última consequência do próprio pecado, que se vira contra quem o cometeu. É a situação em que definitivamente se coloca quem rejeita a misericórdia do Pai, também no último instante da sua vida.
2. Para descrever esta realidade, a Sagrada Escritura serve-se de uma linguagem simbólica, que aos poucos assumirá aspectos bem definidos. No Antigo Testamento, a condição dos mortos ainda não estava plenamente iluminada pela Revelação. Com efeito, pensava-se em geral que os mortos estivessem recolhidos no sheol, um lugar de trevas (cf. Ez 28, 8; 31, 14; Jb 10, 21 s.; 38, 17; Sl 30, 10; 88, 7.13), uma fossa da qual não se sobe (cf. Jb 7, 9), um lugar onde não é possível louvar a Deus (cf. Is 38, 18; Sl 6, 6).
O Novo Testamento projeta nova luz sobre a condição dos mortos, sobretudo anunciando que Cristo, com a Sua ressurreição, venceu a morte e estendeu o Seu poder libertador também ao reino dos mortos.
A redenção, contudo, continua uma oferta de salvação que compete ao homem acolher em liberdade. Por isto cada um será julgado «segundo as suas obras» (Ap 20, 13). Recorrendo a imagens, o Novo Testamento apresenta o lugar destinado aos operadores de iniquidade como uma fornalha ardente, onde há «choro e ranger de dentes» (Mt 13, 42; cf. 25, 30.41), ou como a Geena de «fogo inextinguível» (Mc 9, 43). Tudo isto é expresso de modo narrativo na parábola do rico avarento, na qual se precisa que o inferno é o lugar de pena definitiva, sem possibilidade de retorno ou de mitigação do sofrimento (cf. Lc 16, 19-31).
Também o Apocalipse representa de maneira simbólica, num «lago de fogo», aqueles que não estão inscritos no livro da vida, indo assim ao encontro da «segunda morte» (Ap 20, 13 s.). Quem, portanto, se obstina a não abrir-se ao Evangelho predispõe-se a «uma ruína eterna, longe da face do Senhor e da glória do seu poder» (2 Ts 1, 9).
3. As imagens com que a Sagrada Escritura nos apresenta o inferno devem ser interpretadas de maneira correta. Elas indicam a completa frustração e vazio de uma vida sem Deus. O inferno está a indicar, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem de maneira livre e definitiva se afasta de Deus, fonte de vida e de alegria. Assim resume os dados da fé sobre este tema o Catecismo da Igreja Católica: «Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus é a mesma coisa que morrer separado d'Ele para sempre, por livre escolha própria. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra "Inferno"» (n. 1033).
A «perdição» não deve, por isso, ser atribuída à iniciativa de Deus, pois no Seu amor misericordioso Ele não pode querer senão a salvação dos seres por Ele criados. Na realidade, é a criatura que se fecha ao Seu amor. A «perdição» consiste precisamente no definitivo afastamento de Deus, livremente escolhido pelo homem e confirmado com a morte que sela para sempre aquela opção. A sentença de Deus ratifica este estado.
4. A fé cristã ensina que, no delineamento do «sim» e do «não», que caracteriza a liberdade da criatura, alguém já disse não. Trata-se das criaturas espirituais que se rebelaram contra o amor de Deus e são chamadas demónios (cf. Concílio Lateranense IV: DS 800-801). Para nós, seres humanos, esta sua vicissitude soa como advertência: é apelo contínuo a evitar a tragédia a que o pecado leva e a modelar a nossa existência segundo a de Jesus, que se desenvolveu no sinal do «sim» a Deus.
A perdição continua uma real possibilidade, mas não nos é dado conhecer, sem especial revelação divina, quais os seres humanos que nela estão efectivamente envolvidos. O pensamento do inferno - e menos ainda a utilização imprópria das imagens bíblicas - não deve criar psicoses ou angústia, mas representa uma necessária e salutar advertência à liberdade, no interior do anúncio de que Jesus Ressuscitado venceu Satanás, dando-nos o Espírito de Deus, que nos faz invocar «Abbá, Pai» (Rm 8, 15; Gl 4, 6).
Esta perspectiva rica de esperança prevalece no anúncio cristão. Ela está reflectida de maneira eficaz na tradição litúrgica da Igreja, como testemunham por exemplo as palavras do Cânone Romano: «Aceitai com benevolência, ó Senhor, a oferta que nós, vossos ministros e a vossa família inteira, Vos apresenta- mos... salvai-nos da perdição eterna, e acolhei-nos no rebanho dos eleitos»."1.

Notas 

1. Papa João Paulo II, Audiência: O inferno como rejeição definitiva de Deus (28 de Julho de 1999). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1999/documents/hf_jp-ii_aud_28071999.html
2. O negrito é de minha autoria e foi usado para realçar o conteúdo do ensinamento papal.

26 novembro 2016

O Céu

Você sabe o que é o Céu, segundo a Doutrina Católica?
Se você respondeu não, leia a catequese de São João Paulo II (transcrita abaixo) para aprender.
Se você respondeu sim, leia a catequese do Santo Papa para confirmar se você sabe mesmo.
"O «céu» como plenitude de intimidade com Deus

Queridos irmãos e irmãs,
1. Quando tiver passado a figura deste mundo, aqueles que acolheram Deus na sua vida e se abriram com sinceridade ao seu amor pelo menos no momento da morte, poderão gozar daquela plenitude de comunhão com Deus, que constitui a meta da existência humana. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, «esta vida perfeita, esta comunhão de vida e de amor com a Santíssima Trindade, com a Virgem Maria, com os anjos e todos os bem-aventurados chama-se "Céu". O Céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva» (n. 1024).
Queremos hoje procurar captar o sentido bíblico do «céu», para podermos compreender melhor a realidade a que esta expressão remete.
2. Na linguagem bíblica o «céu», quando está unido à «terra», indica uma parte do universo. A respeito da criação, a Escritura diz: «No princípio, Deus criou os céus e a terra» (Gn 1, 1).
No plano metafórico o céu é entendido como habitação de Deus, que nisto se distingue dos homens (cf. Sl 104, 2 s.; 115, 16; Is66, 1). Do alto dos céus Ele vê e julga (cf. Sl 113, 4-9), e desce quando é invocado por nós (cf. Sl 18, 7.10; 144, 5). Contudo, a metáfora bíblica faz bem entender que Deus nem Se identifica com o céu nem pode estar encerrado no céu (cf. 1 Rs 8, 27); e isto é verdadeiro, apesar de nalgumas passa- gens do primeiro livro dos Macabeus «o Céu» ser simplesmente um nome de Deus (1 Mac 3, 18-19.50 e 60; 4, 24-55).
À representação do céu, como habitação transcendente de Deus vivo, acrescenta-se a dum lugar ao qual também os crentes podem chegar por graça, como no Antigo Testamento emerge das vicissitudes de Henoc (cf. Gn 5, 24) e de Elias (cf. 2 Rs 2, 11). Assim, o céu torna-se figura da vida em Deus. Neste sentido, Jesus fala de «recompensa nos céus» (Mt 5, 12) e exorta a «acumular tesouros no céu» (Ibid.,6,20;cf. 19, 21).
3. O Novo Testamento aprofunda a ideia do céu também em relação ao mistério de Cristo. Para indicar que o sacrifício do Redentor adquire um valor perfeito e definitivo, a Carta aos Hebreus afirma que Jesus «atravessou os céus» (Hb 4, 14) e «não entrou num santuário feito por mão de homem, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu» (Ibid., 9, 24). Os crentes, depois, enquanto são amados de modo especial por parte do Pai, ressuscitam com Cristo e tornam-se cidadãos do céu. Vale a pena escutar quanto o apóstolo Paulo nos comunica a respeito disso num texto de grande intensidade: «Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos pelos nossos delitos, deu-nos a vida juntamente com Cristo. É pela graça que fostes salvos. Com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar lá nos Céus, em Cristo Jesus, para mostrar aos séculos futuros a extraordinária riqueza da sua graça, pela bondade que teve para connosco em Cristo Jesus» (Ef 2, 4-7). A paternidade de Deus, rico em misericórdia, é experimentada pelas criaturas através do amor do Filho de Deus crucificado e ressuscitado, o qual como Senhor está sentado nos céus à direita do Pai.
4. A participação na completa intimidade com o Pai, depois do percurso da nossa vida terrena, passa portanto através da inserção no mistério pascal de Cristo. São Paulo ressalta com viva imagem espacial este nosso caminhar rumo a Cristo nos céus, no fim dos tempos: «Depois nós, os vivos que ficamos, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens; iremos ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, portanto, uns aos outros, com estas palavras» (1 Ts 4, 17-18).
No contexto da Revelação sabemos que o «céu», ou a «bem-aventurança» na qual nos encontraremos, não é uma ideia abstrata, nem sequer um lugar físico entre as nuvens, mas uma relação viva e pessoal com a Santíssima Trindade. É o encontro com o Pai que se realiza em Cristo ressuscitado, graças à comunhão do Espírito Santo.
Deve-se manter perenemente uma certa sobriedade ao descrever estas «realidades últimas», dado que a sua representação permanece sempre inadequada. Hoje, a linguagem personalista consegue dizer de maneira menos imprópria a situação de felicidade e de paz em que nos estabelecerá a comunhão definitiva com Deus.
O Catecismo da Igreja Católica sintetiza o ensinamento eclesial acerca desta verdade, afirmando que «pela sua morte e ressurreição, Jesus Cristo "nos abriu" o céu. A vida dos bem-aventurados consiste na posse, em plenitude, dos frutos da redenção operada por Cristo, que associa à sua glorificação celeste aqueles que n'Ele acreditaram e permaneceram fiéis à sua vontade. O Céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados n'Ele» (n. 1026).
5. Esta situação final pode, entretanto, ser antecipada de algum modo hoje, quer na vida sacramental, cujo centro é a Eucaristia, quer no dom de si mediante a caridade fraterna. Se soubermos gozar de maneira ordenada dos bens que o Senhor nos concede cada dia, já experimentaremos aquela alegria e paz de que um dia haveremos de fruir plenamente. Sabemos que nesta fase terrena tudo está sob o sinal do limite, contudo o pensamento das realidades «últimas» ajuda-nos a viver bem as realidades «penúltimas». Estamos conscientes de que enquanto caminhamos neste mundo somos chamados a buscar «as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus» (Cl 3, 1), para estarmos com Ele na realização escatológica, quando no Espírito Ele reconciliar totalmente com o Pai todas as coisas, «tanto as da terra como as do céu» (Ibid., 1, 20)."1

Notas
1. Papa João Paulo II, Audiência: O «céu» como plenitude de intimidade com Deus (21 de Julho de 1999). Disponível em:  http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1999/documents/hf_jp-ii_aud_21071999.html
 2. O negrito é de minha autoria para realçar o conteúdo do ensinamento papal.

25 novembro 2016

O que é o Purgatório?

Nós, Católicos,  acreditamos na existência do Purgatório. Mas, muita gente não sabe o que ele realmente significa. Então compartilho aqui o ensinamento de três Papas sobre esse assunto. Antes, porém, vejamos o que o Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz sobre o assunto:
"§1030 Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu.


§1031 A Igreja denomina Purgatório esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados.
A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório sobretudo no Concílio de Florença e de Trento. Fazendo referência a certos textos da Escritura, a tradição da Igreja fala de um fogo purificador.
§1032 Este ensinamento apoia-se também na prática da oração pelos defuntos, da qual já a Sagrada Escritura fala: "Eis por que ele [Judas Macabeu) mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos de seu pecado" (2Mc 12,46).
Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em especial o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, eles possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos:
Levemo-lhes socorro e celebremos sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai que deveríamos duvidar de que nossas oferendas em favor dos mortos lhes levem alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer nossas orações por eles.
§1472 As Penas do Pecado - Para compreender esta doutrina e esta prática da Igreja, é preciso admitir que o pecado tem uma dupla conseqüência. O pecado grave priva-nos da comunhão com Deus e, consequentemente, nos toma incapazes da vida eterna; esta privação se chama "pena eterna" do pecado. Por outro lado, todo pecado, mesmo venial, acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra, quer depois da morte, no estado chamado "purgatório". Esta purificação liberta da chamada "pena temporal" do pecado. Essas duas penas não devem ser concebidas como uma espécie de vingança infligida por Deus do exterior, mas, antes, como uma conseqüência da própria natureza do pecado. Uma conversão que procede de uma ardente caridade pode chegar à total purificação do pecador, de tal modo que não haja mais nenhuma pena."1.
Assim, vejamos os ensinamentos dos Papas João Paulo II, Bento XVI e  Paulo VI.

São João Paulo II deixou-nos uma profunda explicação sobre o tema na audiência "O purgatório: necessária purificação para o encontro com Deus"2. Vejamo-na:
"2. Na Sagrada Escritura podem-se captar alguns elementos que ajudam a compreender o sentido desta doutrina, embora ela não seja enunciada de modo formal. Eles exprimem a convicção de que não se pode aceder a Deus sem passar através de alguma purificação.
Segundo a legislação religiosa do Antigo Testamento, aquilo que é destinado a Deus deve ser perfeito. Por conseguinte, a integridade também física é particularmente necessária para as realidades que entram em contacto com Deus no plano sacrifical, como por exemplo os animais a serem imolados (cf. Lv 22, 22), ou institucional, como no caso dos sacerdotes, ministros do culto (cf. Lv 21, 17-23). A esta integridade física deve corresponder uma dedicação total, dos indivíduos e da colectividade (cf. 1 Rs 8, 61) ao Deus da aliança, segundo os grandes ensinamentos do Deuteronômio (cf. 6, 5). Trata-se de amar a Deus com todo o próprio ser, com pureza de coração e testemunho de obras (cf. ibid., 10, 12 s.).

A exigência de integridade impõe-se evidentemente depois da morte, para o ingresso na comunhão perfeita e definitiva com Deus. Quem não tem esta integridade deve passar pela purificação. É um texto de São Paulo que o sugere. O Apóstolo fala do valor da obra de cada um, que será revelada no dia do juízo, e diz: «Se a obra construída subsistir, o construtor receberá a paga. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá a perda. Ele, porém, será salvo, como que através do fogo» (1 Cor 3, 14-15).

3. Para alcançar um estado de perfeita integridade, às vezes é necessária a intercessão ou a mediação de uma pessoa. Por exemplo, Moisés obtém o perdão do povo com uma oração, na qual evoca a obra salvífica realizada por Deus no passado e invoca a sua fidelidade ao juramento feito aos antepassados (cf. Êx 32, 30 e vv. 11-13). A figura do Servo do Senhor, delineada pelo Livro de Isaías, caracteriza-se também pela função de interceder e de expiar a favor de muitos; no final dos seus sofrimentos ele «verá a luz» e «justificará muitos», tomando sobre si as suas iniquidades (cf. Is 52, 13-53, v. 12, especialmente 53, 11).

Segundo a perspectiva do Antigo Testamento, o Salmo 51 pode ser considerado uma síntese do processo de reintegração: o pecador confessa e reconhece a própria culpa (cf. v. 6), pede insistentemente que seja purificado ou «lavado» (cf. vv. 4.9.12 e 16) para poder proclamar o louvor divino (cf. v. 17).

4. No Novo Testamento Cristo é apresentado como o intercessor, que assume as funções do sumo sacerdote no dia da expiação (cf. Hb 5, 7; 7, 25). Mas n'Ele o sacerdócio apresenta uma configuração nova e definitiva. Ele entra uma só vez no santuário celeste, com a finalidade de interceder diante de Deus em nosso favor (cf. Hb 9, 23-26, especialmente v. 24). Ele é Sacerdote e ao mesmo tempo «vítima de expiação» pelos pecados de todo o mundo (cf. 1 Jo 2, 2).

Jesus, como o grande intercessor que nos expia, revelar-Se-à plenamente no final da nossa vida, quando Se expressar com a oferta da misericórdia mas também com o inevitável juízo sobre aquele que rejeita o amor e o perdão do Pai.

A oferta da misericórdia não exclui o dever de nos apresentarmos puros e íntegros diante de Deus, ricos daquela caridade, que por Paulo é chamada «vínculo de perfeição» (Cl 3, 14).

5. Durante a nossa vida terrena, seguindo a exortação evangélica a sermos perfeitos como o Pai celeste (cf. Mt 5, 48), somos chamados a crescer no amor para nos encontrarmos firmes e irrepreensíveis diante de Deus Pai, «por ocasião da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos» (1 Ts 3, 12 s.).
Por outro lado, somos convidados a «purificar-nos de toda a imundície da carne e do espírito» (2 Cor 7, 1; cf. 1 Jo 3, 3), porque o encontro com Deus requer uma pureza absoluta.

Todo o vestígio de apego ao mal deve ser eliminado; toda a deformidade da alma há-de ser corrigida. A purificação deve ser completa, e é precisamente assim que a doutrina da Igreja entende o purgatório. "2.

O Papa Bento XVI fala do purgatório, segundo Santa Catarina de Gênova: 
"O pensamento de Catarina sobre o purgatório, pelo qual ela é particularmente conhecida, está condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Tratado sobre o purgatório e o Diálogo entre a alma e o corpo. É importante observar que, na sua experiência mística, Catarina jamais tem revelações específicas sobre o purgatório ou sobre as almas que ali estão a purificar-se. Todavia, nos escritos inspirados pela nossa santa, é um elemento central, e o modo de o descrever tem características originais em relação à sua época.
O primeiro traço original diz respeito ao «lugar» da purificação das almas. No seu tempo, ele era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espaço: pensava-se num certo espaço, onde se encontraria o purgatório. Em Catarina, ao contrário, o purgatório não é apresentado como um elemento da paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Este é o purgatório, um fogo interior. A santa fala do caminho de purificação da alma, rumo à plena comunhão com Deus, a partir da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em relação ao amor infinito de Deus (cf. Vida admirável, 171v). Ouvimos sobre o momento da conversão, quando Catarina sente repentinamente a bondade de Deus, a distância infinita da própria vida desta bondade e um fogo ardente no interior de si mesma. E este é o fogo que purifica, é o fogo interior do purgatório.
Também aqui há um traço original em relação ao pensamento do tempo. Com efeito, não se começa a partir do além para narrar os tormentos do purgatório — como era habitual naquela época e talvez ainda hoje — e depois indicar o caminho para a purificação ou a conversão, mas a nossa santa começa a partir da própria experiência interior da sua vida a caminho da eternidade.
A alma — diz Catarina — apresenta-se a Deus ainda vinculada aos desejos e à pena que derivam do pecado, e isto torna-lhe impossível regozijar com a visão beatífica de Deus.
Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina (cf. Vida admirável, 177r). E também nós sentimos como estamos distantes, como estamos repletos de tantas coisas, a ponto de não podermos ver Deus. A alma está consciente do imenso amor e da justiça perfeita de Deus e, por conseguinte, sofre por não ter correspondido de modo correto e perfeito a tal amor, e precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado.
Em Catarina entrevê-se a presença de fontes teológicas e místicas das quais era normal haurir na sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, ou seja, aquela do fio de ouro que liga o coração humano ao próprio Deus. Quando Deus purifica o homem, liga-o com um fio de ouro extremamente fino, que é o seu amor, e atrai-o a si com um afeto tão forte, que o homem permanece como que «superado, vencido e totalmente fora de si». Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência (cf. Vida admirável, 246rv). Esta situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para manifestar a obra da luz divina nas almas do purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fúlgidos de Deus (cf. Vida admirável,179r).

Queridos amigos, na sua experiência de união com Deus os santos alcançam um «saber» tão profundo dos mistérios divinos, no qual o amor e o conhecimento se compenetram, a ponto de ajudarem os próprios teólogos no seu compromisso de estudo, de intelligentia fidei, de intelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo daquilo que é o purgatório.
Com a sua vida, santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo acerca do purgatório, a santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé, que se torna para nós um convite a rezar pelos defuntos, a fim de que eles possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1032)."3.
Para Santa Catarina de Gênova:
"A alma que não deseja ser purificada na vida terrena e não encontra prazer na purificação, deverá sofrer uma purificação mais forte no Purgatório. Porque aqui na terra encontra complacência e consolação no Senhor.
As chamas com as quais a alma é purificada aqui na terra, são as chamas do amor divino, no Purgatório as chamas que queimam e purificam todos os nossos pecados não são chamas do amor divino por isto causam dor, angústia: não existe compaixão. E mesmo que o nosso amor pelo Senhor cresce, não tira nem diminui o tormento que se sente, mesmo quando se percebe os raios do Amor de Deus."4.
Por fim, encerro esta postagem contextualizando o purgatório em nosso Credo,com as palavras de Papa Paulo VI:
"28.Cremos na vida eterna. Cremos que as almas de todos aqueles que morrem na graça de Cristo - quer as que se devem ainda purificar no fogo do Purgatório, quer as que são recebidas por Jesus no Paraíso, logo que se separam do corpo, como sucedeu com o Bom Ladrão -, formam o Povo de Deus para além da morte, a qual será definitivamente vencida no dia da Ressurreição, em que estas almas se reunirão a seus corpos.

29.Cremos que a multidão das almas, que já estão reunidas com Jesus e Maria no Paraíso, constituem a Igreja do céu, onde gozando da felicidade eterna, vêem Deus como Ele é (cf. 1Jo 3,2) (33), e participam com os santos Anjos, naturalmente em grau e modo diverso, do governo divino exercido por Cristo glorioso, uma vez que intercedem por nós e ajudam muito a nossa fraqueza, com a sua solicitude fraterna
30.Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, a saber: dos que peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda se purificam e dos que gozam da bem-aventurança do céu, formando todos juntos uma só Igreja. E cremos igualmente que nesta comunhão dispomos do amor misericordioso de Deus e dos seus Santos, que estão sempre atentos para ouvir as nossas orações, como Jesus nos garantiu: "Pedi e recebereis" (cf. Lc 11,9-10; Jo 16,24). Professando está fé e apoiados nesta esperança, nós aguardamos a ressurreição dos mortos e a vida do século futuro.
Bendito seja Deus: Santo, Santo, Santo! Amém."5.

Notas
1. Catecismo da Igreja Católica, índice analítico, P.98 Purgatório. Disponível em: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/p/p.html
2. Papa João Paulo II, Audiência: (4 de agosto de 1999). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1999/documents/hf_jp-ii_aud_04081999.html
3. Papa Bento XVI, Audiência: Santa Catarina de Génova (12 de janeiro de 2011). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20110112.html 
4. Santa Catarina de GênovaArtigo N.º 9078 - Parte 3 - Visões de Santa Catarina de Genova – Jesus revela o Purgatório e o inferno. Disponível em: http://www.espacojames.com.br/?cat=112&id=9078
5. Papa Paulo VI, Homilia (30 de Junho de 1968). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/motu_proprio/documents/hf_p-vi_motu-proprio_19680630_credo.html


13 novembro 2016

Oração à Mãe da Misericórdia

Hoje é o encerramento da Porta Santa nas Basílicas de Roma e nas Dioceses. Mas, a prática de obras de misericórdia, da reconciliação e do perdão, da oração, da frequência aos sacramentos e da busca pela perfeição da caridade continuam sempre. E é nesse clima de paz e de amor que lhe convido para fazer esta bela oração de São João Paulo II:




"Ó Maria,
Mãe de misericórdia,
velai sobre todos
para não se desvirtuar a Cruz de Cristo,
para que o homem não se extravie
do caminho do bem,
nem perca a consciência do pecado,
mas cresça na esperança
em Deus «rico de misericórdia» (Ef 2, 4),
cumpra livremente as boas obras
por Ele de antemão preparadas (cf. Ef 2, 10)
e toda a sua vida seja assim
«para louvor da Sua glória» (Ef 1, 12)."




Fonte:
Papa João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de Agosto de 1993). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_06081993_veritatis-splendor.html

06 outubro 2016

Quem é o Anjo da Guarda?

Finalizando a série dos anjos, após mostrar suas características e missão, bem como os anjos que pecaram e seu destino, veremos agora os santos Anjos da Guarda:

Normalmente, quando se fala em Anjo da Guarda, vem à mente a imagem do anjo protetor das crianças. Sim. É verdade que os anjos estão presentes na infância, mas também estão em todo o viver, até à morte (Lc 16, 22). "A vida humana é acompanhada pela sua assistência (Sl 34, 8; 91, 10-13) e intercessão (Job 33, 23-24; Zc 1, 12; Tb 12, 12). Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus"(CIC 336)1.

Segundo São Basílio Magno, «Cada fiel tem a seu lado um anjo como protetor e pastor para o guiar na vida» (CIC 336)1. E "deve ser grande a dignidade das almas, para que cada uma tenha desde o princípio do nascimento, um anjo delegado para sua guarda."(São Jerônimo)2.

Segundo são Tomás de Aquino, "o homem, colocado no estado da vida presente, está como na via, que conduz à pátria. Ora, nessa via está ele exposto a muitos perigos, interiores e exteriores, conforme a Escritura: No caminho por onde eu andava, esconderam-me o laço. E por isso, assim como se dão guardas aos homens que andam por caminho não seguro, assim a cada homem, enquanto viandante, é delegado um anjo da guarda."3.

"Pondo ao nosso lado o Seu anjo, o Senhor quer acompanhar cada momento da nossa existência com o Seu amor e com a Sua proteção, para que possamos combater a boa batalha da fé (1 Tm. 6, 12) e testemunhar, sem temor nem hesitação, a nossa adesão a Ele, morto e ressuscitado para a nossa redenção", explica Papa João Paulo II 4.

Esse amor e proteção de Deus foi expresso nas Sagradas Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento.  

No Antigo Testamento, Seu amor se manifesta quando "Deus é chamado de salvador do povo de Israel (Ex 6,6; Dt 7,8; 13,5; 32,15; 33,29; Is 41,14; 43,14; 44,24; Sl 78; 1Mc 4,30). Contudo, o seu amor preferencial por Israel tem um alcance universal, que se estende a cada pessoa individualmente (2Sm 22,18.44.49; Sl 25,5; 27,1) e a todos os seres humanos: “Sim, tu amas tudo o que criaste, não te aborreces com nada do que fizeste; se alguma coisa tivesses odiado não a terias feito” (Sb 11,24). Por meio de Israel, as nações pagãs encontrarão a salvação (Is 2,1-4; 42,1; 60,1-14). “Também te estabeleci como luz das nações, a fim de que a minha salvação chegue até as extremidades da terra” (Is 49,6)."5

E Sua proteção é percebida em: “Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei." (Êxodo 23, 20); "porque aos seus anjos Ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos." (Salmos 90,11).

No Novo Testamento, "Este amor preferencial e universal de Deus se relaciona intimamente e se realiza de um modo único e exemplar em Jesus Cristo, que é o único Salvador de todos (At 4,12), mas em particular de quem quer que se faça pequeno ou humilde (tapeinōsei) como os “pequenos”. Efetivamente, Jesus, ele próprio manso e humilde de coração (Mt 11,29), mantém com eles uma misteriosa afinidade e solidariedade (Mt 18,3-5; 10,40-42; 25,40.45). E Jesus afirma que o cuidado desses pequenos é confiado aos anjos de Deus (Mt18,10)."5.

"«Segundo a tradição da Igreja, todos nós temos um anjo, que nos preserva e nos dá conselhos». «quantas vezes ouvimos: “Deverias agir assim... isto não está bem... presta atenção!”». É «a voz deste nosso companheiro de viagem». E podemos estar «certos de que, com os seus conselhos, ele nos guiará até ao fim da nossa vida»" nos diz Papa Francisco, segundo Publicado no L'Osservatore Romano 6.

A confiança no Anjo da guarda, "a quem Deus confiou a sua singular mensagem de amor"7 traz conforto e a consciência de jamais se sentir sozinho.

Essa proteção e conforto foi expresso por Papa Bento XVI ao falar sobre os Santos Arcanjos Gabriel, Rafael, Miguel e o anjo da guarda. Ele disse:

"Queridos irmãos e irmãs, invoquemos com confiança a sua ajuda, assim como a proteção do Anjo da Guarda, cuja festa celebraremos a 2 de Outubro. A presença invisível destes Espíritos bem-aventurados é-nos de grande ajuda e conforto: eles caminham ao nosso lado e protegem-nos em todas as ocasiões, defendem-nos dos perigos e a eles podemos recorrer em todos os momentos. Muitos santos mantinham com os Anjos uma relação de verdadeira amizade e são numerosos os episódios que testemunham a sua assistência em circunstâncias particulares."8.
Sim. Muitos santos tinham amizade com os Anjos da guarda. Vejamos o exemplo de Santa Francisca Romana:
 "Mulher de ação, Francisca hauria contudo de uma intensa vida de oração a força necessária para o seu apostolado social. O Senhor concedeu-lhe também graças extraordinárias, assim como fizera com duas outras grandes místicas daquele tempo, santa Catarina de Sena e santa Brígida da Suécia.
Permanece também típica a sua familiaridade com o Anjo da Guarda, do qual era devotíssima. Ele aparecia-lhe no seu caminho, defendendo-a dos perigos e iluminando-lhe a estrada durante a noite. Foi precisamente por isto que o Papa Pio XI em 1925 quis proclamar santa Francisca Romana Padroeira dos motoristas, para que do céu, juntamente com os Anjos da Guarda, obtivesse proteção para quem percorre as estradas da nossa cidade."9.

Alguém pode perguntar: Mas, se o anjo da guarda ama, cuida e protege a pessoa, por que é que acontecem sofrimentos com ela? Lendo São Tomás de Aquino temos a resposta: Embora, o anjo da guarda nunca abandone totalmente o ser humano, às vezes, ele não impede que a pessoa "entre em alguma tribulação, ou mesmo caia em pecado, conforme a ordem dos juízos divinos."10Isso não significa que os anjos queiram os pecados e as penas dos homens. Isso significa que querem que se conserve a ordem da divina justiça.


A vontade de Deus sempre é feita. E não somente se faz "as coisas que Deus quer que se façam, mas se farão contingente ou necessariamente, conforme ele o quiser."11. Por isso, "o que escapa à vontade divina, numa ordem, entra nela por outra. Assim, o pecador pecando, afasta-se, o quanto pode, da vontade divina; reentra, porém, na ordem desta quando punido pela divina justiça."12.


Finalizando, é interessante observar que a guarda dos anjos a cada pessoa é feita pela "ordem ínfima dos anjos [vide 3ª Hierarquia], que devem, segundo [São] Gregório [Magno], anunciar as coisas mínimas; ora, o que é mínimo, nas funções dos anjos, é buscar o que leva cada homem à salvação"13.


Além disso, realçar que nem todos os anjos da guarda exercem guarda especial sobre cada homem. Certas ordens [vide hierarquia] têm guarda mais universal.  "Assim, a guarda da multidão humana pertence à ordem dos Principados; ou talvez à dos Arcanjos, chamados príncipes dos anjos, sendo por isso Miguel, a que chamamos Arcanjo, considerado um dos primeiros príncipes. Depois sobre todas as naturezas corpóreas exercem guarda as Virtudes. Em seguida, também sobre os demônios exercem guarda as Potestades. E por fim, ulteriormente, sobre os bons espíritos, as Dominações, ou Principados, segundo Gregório"13.

Encerramos, assim, a série sobre os anjos. 

Notas
1. Catecismo da Igreja Católica (CIC), parágrafos 198-421. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html
2. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte 1, Tratado sobre a conservação e o governo das coisas, questão 113, artigo 2. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2165 
3.São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte 1, Tratado sobre a conservação e o governo das coisas, questão 113, artigo 4. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2167
4. Papa João Paulo II, Ângelus/Regina Caeli (31 de março de 1997). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/angelus/1997/documents/hf_jp-ii_reg_19970331.html
5. Comissão Teológica Internacional, "A Esperança da salvação para as crianças que morrem sem batismo", parágrafo 44-45. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_con_cfaith_doc_20070419_un-baptised-infants_po.html
6. Papa Francisco, Meditações Matutinas na Santa Missa celebrada na capela Domus Sanctae Marthae: "Todos nós temos um anjo" (2 de Outubro de 2014). Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 41 de 9 de Outubro de 2014. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2014/documents/papa-francesco-cotidie_20141002.html

7. Papa João Paulo II, homilia (13 de janeiro de 2002). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/2002/documents/hf_jp-ii_hom_20020113_baptisms.html

8. Papa Bento XVI, saudação às Comunidades Eclesial e civil de Castel Gandolfo (29 de Setembro de 2008). Disponível emhttp://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2008/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20080929_saluto-castel-gandolfo.html
9. Cardeal Angelo Sodano, homilia - festa anual de santa Francisca romana (5 de Março de 2005). Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/2006/documents/rc_seg-st_20060305_st-maria-nova_po.html

10.  São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte 1, Tratado sobre a conservação e o governo das coisas, questão 113, artigo6. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2169
11. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte 1, Tratado de Deo Uno, Questão 19, artigo 8. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/335
12. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte 1, Tratado de Deo Uno, Questão 19, artigo 6. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/333
13.São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte 1,  Tratado sobre a conservação e o governo das coisas, questão 113, artigo 3. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2166

14 setembro 2016

Parábola do "filho pródigo" sob a ótica de 3 Papas

A parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32) é uma das parábolas de Jesus mais conhecidas. Sua mensagem é sempre atual e, por isso, vale a pena refletir sobre ela. 

E, para que haja o melhor entendimento da mensagem de Jesus, eu escolhi postar aqui os ensinamentos de 3 papas: João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Em diferentes ocasiões, eles analisaram essa parábola. E por terem diferentes óticas, as idéias dos três se complementam e propiciam verdadeiras lições de vida e de fé. Inicialmente, compartilho as observações de Bento XVI quanto ao nome dado à parábola:
"Esta, que é talvez a mais bela parábola de Jesus, é conhecida com o nome de "parábola do filho pródigo". De fato, a figura do filho perdido é tão impressionantemente descrita, e o seu destino, tanto no bem como no mal, vai tão diretamente ao coração, que ela deve aparecer como o centro autêntico do texto. A parábola, porém, tem na realidade três personagens principais. J. Jeremias e outros propuseram que seria melhor designá-la como a parábola do Pai bondoso — Ele seria o autêntico centro do texto. P. Grelot, por sua vez, chamou a atenção para a figura do segundo irmão como totalmente essencial e, a partir disso, era da opinião — com razão, parece-me — de que a designação mais adequada seria "a parábola dos dois irmãos". Isso resulta em primeiro lugar da situação à qual a parábola responde. Ela é em S. Lucas assim representada: "Todos os publicanos e pecadores vinham ter com Ele, para O escutarem. Os fariseus e os escribas irritaram-se e disseram: Ele se dá com os pecadores e até come com eles" (Lc 15,ls). Encontramos aqui dois grupos, dois "irmãos": publicanos e pecadores; fariseus e escribas. Jesus responde-lhes com três parábolas: com a das 99 ovelhas que ficaram em casa e a ovelha perdida; com a parábola da dracma perdida; e, finalmente, acrescenta outra e diz "um homem tinha dois filhos" (Lc 15,11). Trata-se, portanto, dos dois. Com isto, o Senhor agarra uma tradição muito antiga: a temática dos dois irmãos percorre todo o Antigo Testamento, a começar com Caim e Abel, passando por Ismael e Isaac, até Esaú e Jacó, e espelha-se de um outro modo de novo na relação dos 11 filhos de Jacó no que se refere a José. Na história das eleições domina uma notável dialética entre os dois irmãos, que permanece no Antigo Testamento como uma questão aberta. Jesus retomou esta temática numa nova hora da ação de Deus na história e imprimiu-lhe um novo rumo. Em S. Mateus encontra- se um texto semelhante à nossa parábola dos dois irmãos: um declara que quer fazer a vontade do pai, mas não a realiza; o outro diz não à vontade do pai, mas depois se arrepende e realiza aquilo de que tinha sido encarregado (Mt 21,28-32). Também aqui se trata da relação dos pecadores e dos fariseus; também aqui o texto, em última instância, apela a um novo sim para o chamado de Deus."(pgs. 179-180)"1.
Interessante, não é mesmo? 

Passemos, agora, às considerações sobre a estória e seus personagens. Eu optei  por não transcrever a passagem de Lucas 15, 11-32 pois a análise abaixo, de Bento XVI, praticamente conta a estória. Mas, se quiser ler os versículos bíblicos basta clicar aqui
Assim, nesta homilia feita pelo Papa Bento XVI, ele narra a parábola enfocando a liberdade, e mostrando o que é viver verdadeiramente:
"Neste Evangelho aparecem três pessoas: o pai e os dois filhos. Mas por detrás das pessoas aparecem dois projetos de vida bastante diferentes. Ambos os filhos vivem em paz, são agricultores abastados e, portanto, têm do que viver, vendem bem os seus produtos e a vida parece ser boa.

Todavia, gradualmente o filho mais jovem julga esta vida tediosa, insatisfatória: não pode ser esta, pensa ele, toda a vida: levantar todos os dias, digamos, às 6 horas e depois, segundo as tradições de Israel, uma oração, uma leitura da Bíblia Sagrada, e depois ir trabalhar e no final novamente uma oração. Assim, dia após dia, ele pensa: mas não, a vida é mais do que isto, devo encontrar outra vida, em que eu seja verdadeiramente livre, possa fazer o que me agrada; uma vida livre desta disciplina e destas normas dos mandamentos de Deus, das ordens do pai; gostaria de estar a sós e ter a vida inteira totalmente para mim, com todas as suas belezas. Agora, contudo, é só trabalho...
E assim decide pretender todo o seu patrimônio e partir. O pai é muito atencioso e generoso, e respeita a liberdade do filho: é ele que deve encontrar o seu projeto de vida. E, como diz o Evangelho, ele parte para uma terra muito distante. É provável que fosse distante geograficamente, porque deseja uma mudança, mas também interiormente, porque quer uma vida totalmente diversa.

Agora a sua ideia é: liberdade, fazer tudo o que quero, ignorar estas normas de um Deus que está distante, não permanecer no cárcere desta disciplina da casa, fazer tudo o que é bonito, aquilo que me agrada, levar a vida com toda a sua beleza e a sua plenitude.
E num primeiro momento poderíamos talvez pensar por alguns meses tudo corre bem: ele acha bom ter finalmente alcançado a vida, sente-se feliz. Mas depois, pouco a pouco, sente também aqui o tédio, também aqui é sempre o mesmo. E no final permanece um vazio cada vez mais inquietador; faz-se cada vez mais vivo o sentimento de que esta ainda não é a vida, ao contrário, continuando com todas estas coisas, a vida afasta-se cada vez mais. Tudo se torna vazio: também agora se repropõe a escravidão de fazer as mesmas atividades. E no final inclusive o dinheiro termina, e o jovem julga que o seu nível de vida é inferior ao dos porcos.
Então, começa a refletir e pergunta se era realmente aquele o caminho da vida: uma liberdade interpretada como fazer tudo o que quero, viver, levar a vida só para mim, ou se ao contrário não seria talvez mais vida, viver pelos outros, contribuir para a construção do mundo, para o crescimento da comunidade humana... Assim começa o novo caminho, um caminho interior. O jovem reflete e considera todos estes novos aspectos do problema e começa a ver que era muito mais livre em casa, sendo também ele proprietário, contribuindo para a construção da casa e da sociedade em comunhão com o Criador, conhecendo a finalidade da sua vida, adivinhando o projeto que Deus tinha para ele. Neste caminho interior, neste amadurecimento de um novo projeto de vida, vivendo depois também o caminho exterior, o filho mais jovem põe-se a caminho para regressar, para recomeçar a sua vida, porque já compreendeu que o caminho empreendido era errado. Devo partir de novo com outro conceito, diz ele, devo recomeçar.

E chega à casa do pai, que lhe tinha deixado a sua liberdade para lhe dar a possibilidade de compreender interiormente o que é viver, o que é não viver. O pai abraça-o com todo o seu amor, oferece-lhe uma festa e a vida pode começar de novo, a partir desta festa. O filho compreende que precisamente o trabalho, a humildade, a disciplina de cada dia cria a verdadeira festa e a verdadeira liberdade. Assim regressa a casa interiormente maduro e purificado: compreendeu o que é viver.

Sem dúvida, também no futuro a sua vida não será fácil, as tentações voltarão, mas ele já está plenamente consciente de que uma vida sem Deus não funciona: falta o essencial, falta a luz, falta o porquê, falta o grande sentido do ser homem. Ele entendeu que só podemos conhecer Deus com base na sua Palavra. (Nós, cristãos, podemos acrescentar que sabemos quem é Deus através de Jesus, no qual nos foi mostrado realmente o rosto de Deus). O jovem compreende que os Mandamentos de Deus não são obstáculos para a liberdade e para uma vida bela, mas são os indicadores da vereda pela qual caminhar para encontrar a vida. Entende que também o trabalho, a disciplina, o comprometer-se não por si mesmo mas pelos outros amplia a vida. E precisamente este esforço de se comprometer no trabalho dá profundidade à vida, porque se experimenta a satisfação de ter, no final, contribuído para fazer crescer este mundo, que se torna mais livre e mais bonito.

Agora não gostaria de falar do outro filho, que ficou em casa, mas na sua reação de inveja vemos que interiormente também ele sonhava que seria, talvez, muito melhor tomar todas as liberdades. Também ele, no seu íntimo deveria "voltar para casa" e compreender de novo o que é a vida, entender que só se vive verdadeiramente com Deus, com a sua Palavra, na comunhão da própria família, do trabalho; na comunhão da grande Família de Deus."2

Sábias palavras essas do Papa Emérito! Passemos, agora, às particularidades de cada um dos personagens desta parábola:


Filho pródigo

João Paulo II faz uma análise do jovem pródigo:

"A herança que o jovem tinha recebido do pai era constituída por certa quantidade de bens materiais. Mas, mais importante do que esses bens era a sua dignidade de filho na casa paterna. A situação em que veio a encontrar-se quando se viu sem os bens materiais que dissipara, é natural que o tivesse também feito cair na conta da perda dessa dignidade. Quando pediu ao pai que lhe desse a parte de herança que lhe tocava, para se ausentar para longe, não refletiu por certo nisso. Parece que nem mesmo agora está bem consciente dessa realidade, quando diz para si próprio: «Quantos jornaleiros na casa de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome!». Avalia-se a si mesmo pela medida dos bens que tinha perdido e que já «não possui», enquanto os criados na casa de seu pai «continuam a possuí-los». Estas palavras exprimem principalmente a sua atitude perante os bens materiais. No entanto, por detrás delas esconde-se também o drama da dignidade perdida, a consciência da condição de filho malbaratada. 
É então que toma a decisão: «Levantar-me-ei, irei ter com o meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus jornaleiros» [Lc 15,18 s]. Tais palavras permitem descobrir mais profundamente o problema essencial. Através da complexa situação material de penúria a que o filho pródigo chegou, por causa da sua leviandade, por causa do pecado, amadureceu nele o sentido da dignidade perdida. Quando tomou a decisão de voltar para a casa paterna e de pedir ao pai para ser recebido, não já gozando dos direitos de filho, mas na condição de assalariado, o jovem parece à primeira vista agir por motivo da fome e da miséria em que caiu. Subjacente a esse motivo, porém, está a consciência de perda mais profunda: ser um assalariado na casa do próprio pai é com certeza grande humilhação e vergonha. Apesar disso, o filho pródigo está disposto a arrostar com tal humilhação e vergonha. Caiu na conta de que já não tem mais direito algum, senão o de ser um empregado na casa do pai. Esta reflexão, brota em primeiro lugar da plena consciência da perda que mereceu e do que, doutro modo, poderia vir a possuir. Este raciocínio, precisamente, demonstra que, no âmago da consciência do filho pródigo, se manifesta o sentido da dignidade perdida, daquela dignidade que brota da relação do filho com o pai. Com essa decisão empreendeu o caminho de regresso."3
Papa Francisco mostra que essa dignidade de filho vem do amor do pai:
"«Já não sou digno de ser chamado teu filho...»(v. 19). Mas esta expressão é insuportável para o coração do pai, que ao contrário se apressa a devolver ao filho os sinais da sua dignidade: a roupa bonita, o anel, o calçado. (...) O abraço e o beijo do seu pai levam-no a entender que foi sempre considerado filho, não obstante tudo. Este ensinamento de Jesus é importante: a nossa condição de filhos de Deus é fruto do amor do coração do Pai; não depende dos nossos méritos, nem dos nossos gestos, e portanto ninguém no-la pode tirar, nem sequer o diabo! Ninguém nos pode privar desta dignidade. 4
Filho mais velho

Bento XVI faz uma análise do filho mais velho:
"Agora entra em ação o filho mais velho. Ele regressa a casa vindo do trabalho no campo, ouve a festa em casa, informa-se acerca da causa da festa e fica muito zangado. Ele não pode simplesmente achar justo que a este vadio que dissipou com prostitutas toda a sua fortuna — o bem do Pai —, agora, sem prova nem tempo de penitência, imediatamente e com brilhante esplendor, lhe seja oferecida uma festa. Isto contradiz o seu sentido de justiça: uma vida de trabalho, que ele passou, parece sem importância perante o indecente passado do outro. Fica cheio de amargura: "Há tantos anos que te sirvo e nunca transgredi um sequer dos teus mandamentos", diz para o pai, "e nunca me deste nem sequer um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos" (Lc 15,29). Também com ele foi ter o pai, e agora lhe fala cheio de bondade. O irmão mais velho não sabe nada a respeito da mudança interior e das peregrinações do outro, do caminho para o longínquo afastamento, da sua ruína e do seu reencontrar-se. Ele só vê a injustiça."1
Papa Francisco chama de soberba a atitude desse filho:
"Quando alguém se sente justo — «Eu fiz sempre tudo bem...» —, o Pai vem de igual modo procurar-nos, porque aquela atitude de se sentir justo não é boa: é a soberba! Vem do diabo."6
E fala que esse filho mais velho também precisa da misericórdia do pai: 
"Ele permaneceu sempre em casa, mas é muito diverso do pai! As suas palavras carecem de ternura: «Há muitos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma... E agora que voltou este teu filho» (vv. 29-30). Vemos o desprezo: nunca diz «pai», nunca diz «irmão», só pensa em si mesmo, gaba-se de ter permanecido sempre ao lado do pai e de o ter servido; e no entanto nunca viveu esta proximidade com alegria. E agora acusa o pai porque nunca lhe deu um cabrito para fazer festa. Coitado do pai! Um filho foi embora e o outro nunca permaneceu realmente próximo dele! O sofrimento do pai é como o do Deus, o de Jesus quando nos afastamos ou porque vamos embora ou porque estamos perto mas sem o estar deveras.
Também o filho mais velho precisa de misericórdia. Inclusive os justos, aqueles que se julgam justos, têm necessidade de misericórdia. Este filho representa cada um de nós, quando nos perguntamos se vale a pena labutar tanto, se depois nada recebemos em troca. Jesus recorda-nos que não permanecemos na casa do Pai para receber uma recompensa, mas porque temos a dignidade de filhos corresponsáveis. Não se trata de «negociar» com Deus, mas de seguir Jesus que se entregou incondicionalmente na cruz."4 
Pai

O Papa Bento XVI, realça a atitude do pai de sempre ir ao encontro dos filhos:
"notamos que quando aparece o filho mais velho indignado pelo acolhimento festivo reservado ao irmão, é sempre o pai que lhe vai ao encontro e sai para o suplicar: «Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu» (Lc 15, 31)"7.
E percebe a semelhança das palavras do pai com as palavras de Jesus:
"Meu Filho, tu estás sempre comigo", diz-lhe o pai, "tudo o que é meu é também teu" (Lc 15,31). Ele lhe explica assim a grandeza de ser filho. São as mesmas palavras com as quais Jesus, na oração sacerdotal, descreve a sua relação com o Pai: "Tudo o que é meu é teu e o que é teu é meu"(p.179)1. 
São João Paulo II enfatiza a fidelidade do amor do pai:
"O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em recebê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa."3
Papa Francisco realça a atitude amorosa do Pai para com o filho:
"Jesus não descreve um pai ofendido e ressentido, um pai que por exemplo diz ao filho: «Vais pagar»: não, o pai abraça-o, espera por ele com amor. Ao contrário, a única coisa que o pai quer é que o filho esteja diante dele, são e salvo, é o que o torna feliz, e por isso faz festa. A recepção do filho que volta é descrita de modo comovedor: «Ainda estava longe, quando o seu pai o viu e, movido de compaixão, correu ao seu encontro, lançou-se ao seu pescoço e beijou-o» (v. 20). Quanta ternura; viu-o de longe: o que significa isto? Que o pai subia continuamente ao terraço para perscrutar a estrada a ver se o filho voltava; aquele filho que tinha feito de tudo, mas o pai esperava-o. Como é bonita a ternura do Pai! (...) O abraço e o beijo do seu pai levam-no a entender que foi sempre considerado filho, não obstante tudo."4  

Da interação desses três personagens da parábola, podemos tirar lições sobre o relacionamento com Deus e com o Próximo:


Lições sobre relacionamento com Deus 

1) A mensagem de Jesus é de esperança:
"Esta palavra de Jesus anima-nos a nunca desesperar. Penso nas mães e nos pais em apreensão quando veem os filhos afastar-se seguindo por caminhos perigosos. Penso nos párocos e catequistas que às vezes se interrogam se o seu trabalho foi em vão. Mas penso também em quantos estão na prisão e têm a impressão de que a sua vida acabou; naqueles que fizeram escolhas erradas e não conseguem olhar para o futuro; em todos os que têm fome de misericórdia e perdão, e julgam que não o merecem... Em qualquer situação da vida, não devo esquecer que nunca deixarei de ser filho de Deus, filho de um Pai que me ama e espera a minha volta. Até na pior situação da vida, Deus espera-me, Deus quer abraçar-me, Deus aguarda-me."4
2) Independentemente de se pensar e/ou agir como o filho pródigo ou como o filho mais velho, Deus permanece sempre fiel em seu amor:
"Deus continua a considerar-nos seus filhos quando nos perdemos, e vem ao nosso encontro com ternura quando voltamos para Ele. E fala-nos com tanta bondade quando nós pensamos que somos justos. Os erros que cometemos, mesmo se forem grandes, não afetam a fidelidade do seu amor. "6
"cada um de nós é aquele filho que esbanjou a própria liberdade, seguindo ídolos falsos, miragens de felicidade, e perdeu tudo. Mas Deus não se esquece de nós, o Pai nunca nos abandona. É um Pai paciente, espera-nos sempre! Respeita a nossa liberdade, mas permanece sempre fiel. E quando voltamos para Ele, acolhe-nos como filhos na sua casa, porque nunca, nem sequer por um momento, deixa de esperar por nós com amor. E o seu coração rejubila com cada filho que volta para Ele. Faz festa, porque é alegria. Deus tem esta alegria, cada vez que um de nós, pecadores, vamos ter com Ele e pedimos o seu perdão. Qual é o perigo? É que nós presumimos que somos justos e julgamos os outros. Julgamos até Deus, porque pensamos que Ele deveria castigar os pecadores, condená-los à morte, em vez de perdoar. Então sim que corremos o risco de permanecer fora da casa do Pai! Como aquele irmão mais velho da parábola, que em vez de ficar feliz porque o seu irmão voltou, irrita-se com o pai que o recebeu e faz festa. Se no nosso coração não há misericórdia, a alegria do perdão, não estamos em comunhão com Deus, ainda que observemos todos os preceitos, porque é o amor que salva, não apenas a prática dos preceitos. É o amor a Deus e ao próximo que dá cumprimento a todos os mandamentos. E este é o amor de Deus, a sua alegria: perdoar. Ele espera-nos sempre! Talvez alguém no seu coração tenha algum peso: «Mas eu fiz isto, fiz aquilo...». Ele espera-te! Ele é Pai: espera-nos sempre!"8
3) A relação com Deus se constrói através de uma história:
"este texto evangélico tem o poder de nos falar de Deus, de nos fazer conhecer o seu rosto, melhor ainda, o seu coração. Depois de Jesus nos ter narrado acerca do Pai misericordioso, as coisas já não são como antes, agora conhecemos Deus: Ele é nosso Pai, que por amor nos criou livres e dotados de consciência, que sofre se nos perdemos e faz festa se voltamos. Por isso, a relação com Ele constrói-se através de uma história, analogamente a quanto acontece a cada filho com os próprios pais: no início depende deles; depois reivindica a própria autonomia; e por fim – se há um desenvolvimento positivo –chega a um relacionamento maduro, baseado no reconhecimento e no amor autêntico.Podemos ler nestas etapas também momentos do caminho do homem na relação com Deus. Pode haver uma fase que é como a infância: uma religião movida pela necessidade, pela dependência. À medida que o homem cresce e se emancipa, quer libertar-se desta submissão e tornar-se livre, adulto, capaz de se regular sozinho e de fazer as próprias escolhas de modo autónomo, pensando até que pode viver sem Deus. Precisamente esta fase é delicada, pode levar ao ateísmo, mas também isto, com frequência, esconde a exigência de descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Felizmente, Deus nunca falta à sua fidelidade e, mesmo se nós nos afastamos e nos perdemos, continua a seguir-nos com o seu amor, perdoando os nossos erros e falando interiormente à nossa consciência para nos chamar a si. Na parábola, os dois filhos comportam-se de modo oposto: o menor vai embora de casa e cai muito em baixo, enquanto o maior permanece em casa, mas também ele tem um relacionamento imaturo com o Pai; de facto, quando o irmão volta, o maior não é feliz como o pai, ao contrário irrita-se e não quer entrar em casa. Os dois filhos representam dois modos imaturos de se relacionar com Deus: a rebelião e a hipocrisia. Estas duas formas superam-se através da experiência da misericórdia. Só experimentando o perdão, só reconhecendo-nos amados por um amor gratuito, maior do que a nossa miséria, mas também maior do que a nossa justiça, entramos finalmente num relacionamento deveras filial e livre com Deus."4
4) Deus nos acolhe no sacramento da confissão:
"No sacramento da confissão podemos sempre recomeçar de novo a vida: Ele acolhe-nos, restitui-nos a dignidade de seus filhos. Portanto, redescubramos este sacramento do perdão, que faz brotar a alegria num coração renascido para a vida verdadeira."2 

Lições sobre relacionamento com o próximo


1) O homem é uma criatura capaz de fazer o bem2
"não é uma "mónada", uma entidade isolada que vive somente para si mesma e deve ter a vida unicamente para si própria. Pelo contrário, nós vivemos com os outros, fomos criados com os outros e somente permanecendo com os outros, entregando-nos aos outros, encontramos a vida. O homem é uma criatura na qual Deus imprimiu a sua imagem, uma criatura que é atraída no horizonte da sua Graça, mas é também uma criatura frágil, exposta ao mal; porém, capaz de bem. E finalmente o homem é uma pessoa livre."2
2)  A lógica humana é diferente da lógica de Deus:
"«Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Convinha, porém, fazer festa...» (vv. 31-32). Assim diz o Pai ao filho mais velho. A sua lógica é a da misericórdia! O filho mais jovem pensava que merecia um castigo por causa dos seus pecados, e o filho mais velho esperava uma recompensa pelos seus serviços. Os dois irmãos não falam entre si, vivem histórias diferentes, mas ambos raciocinam segundo uma lógica alheia a Jesus: se fizeres o bem, receberás uma recompensa, se fizerem o mal serás punido; esta não é a lógica de Jesus, não!"4
3) O pecado traz dor; o perdão, alegria.
"A decisão do filho mais novo de se emancipar, esbanjando os bens recebidos do pai e vivendo de maneira dissoluta (cf. Lucas 15, 13), é uma descarada renúncia à comunhão familiar. O afastamento da casa paterna exprime bem o sentido do pecado, com o seu carácter de ingrata rebelião e as suas consequências também humanamente dolorosas. Diante da escolha deste filho o raciocínio humano, expresso de algum modo no protesto do filho mais velho, teria aconselhado a severidade de uma adequada punição, antes de uma plena reintegração na família.
Mas ao contrário o pai, ao vê-lo de longe que retornava, vai ao seu encontro cheio de comoção (ou melhor, «agitando-se nas suas entranhas», como diz literalmente o texto grego: Lc 15, 20), estreita-o num abraço de amor e quer que todos lhe façam festa.
A misericórdia paterna é ressaltada mais ainda quando este pai, ao censurar com ternura o irmão mais velho que reivindica os próprios direitos (cf. ibidem, 15, 29 s.), o convida ao comum banquete de alegria. A pura legalidade é superada pelo generoso e gratuito amor paterno, que supera a justiça humana e convoca os dois filhos a sentarem-se mais uma vez à mesa do pai."9
4) A fraternidade traz alegria ao Pai.
"O pai recuperou o filho perdido e agora pode inclusive restituí-lo ao seu irmão! Sem o filho mais jovem, também o filho mais velho deixa de ser um «irmão». A maior alegria para o pai é ver que os seus filhos se reconheçam irmãos."4
5) A misericórdia do pai é modelo para os confessores:
"Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia."5 


Concluindo esta postagem da parábola do Filho pródigo, deixo  a mensagem de Papa Francisco: 

"Jesus chama todos nós a seguir este caminho: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lc6, 36). Agora, peço-vos algo. Em silêncio, todos pensemos... cada um pense numa pessoa com a qual não está bem, com a qual está irritado, da qual não gosta. Pensemos naquela pessoa e em silêncio, neste momento, oremos por essa pessoa, sejamos misericordiosos para com aquela pessoa. [silêncio de oração]."8



Notas

1. Ratzinger, Joseph (Bento XVI), Jesus de Nazaré: Primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.
2. Papa Bento XVI, homilia (18 de Março de 2007). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2007/documents/hf_ben-xvi_hom_20070318_istituto-penitenziario.html
3. Papa João Paulo II Carta Encíclica Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30111980_dives-in-misericordia.html
4. Papa Francisco. Audiência Geral (11 de maio de 2016). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2016/documents/papa-francesco_20160511_udienza-generale.html
5. Papa Francisco, Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia(11 de abril de 2015). Disponível em :https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html
6. Papa Francisco, Angelus (6 de março de 2016). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2016/documents/papa-francesco_angelus_20160306.html
7. Papa Bento XVIAngelus (14 de março de 2010). Disponível em:  http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2010/documents/hf_ben-xvi_ang_20100314.html 
6. Papa João Pauo II, Audiência (20 de setembro de 2000). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/2000/documents/hf_jp-ii_aud_20000920.html  
7. Papa Bento XVI, Angelus (12 de setembro de 2010). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2010/documents/hf_ben-xvi_ang_20100912.html 
8. Papa Francisco, Angelus(15 de setembro de 2013). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2013/documents/papa-francesco_angelus_20130915.html
9. Papa João Paulo II, Audiência:"Creio na remissão dos pecados" (8 de setembro de 1999). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1999/documents/hf_jp-ii_aud_08091999.html


"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12
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