A
maior parte da nossa vida transcorre no trabalho de cada dia; seja ele
braçal ou mental, doméstico ou empresarial, profissional ou particular. E
o trabalho foi colocado em nossa vida, por Deus, como um meio de
santificação. O Servo de Deus, Monsenhor José Maria Escrivá, fundou uma
grande obra da Igreja, a ´Opus Dei´, tendo como fundamento básico a
´santificação no mundo do trabalho´. Depois que o homem pecou no
paraíso, e perdeu o estado de justiça e santidade originais, Deus fez do
trabalho um meio de redenção para o homem. ´Porque escutaste a voz de
tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o
solo por causa de ti. Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de
tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás a erva dos
campos. Com suor do teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo,
pois dele foste tirado´ (Gen 3,17´19).
Mais do que um castigo para o
homem, o trabalho foi inserido na sua vida para a sua redenção. Por
causa do pecado ele agora é acompanhado do ´suor´, mas este sofrimento
Deus o fez matéria prima de salvação. Infelizmente a maioria dos homens,
mesmo muitos católicos, têm uma visão distorcida do trabalho, e, por
isso, fazem de tudo para se verem livres dele. É um engano. Para nos
mostrar a importância fundamental do trabalho em nossa vida, Jesus
trabalhou até os trinta anos naquela carpintaria humilde e santa de
Nazaré. E para nos mostrar que todo trabalho é santo, qualquer que seja,
do lixeiro ou do Papa, do pedreiro ou do médico, Ele assumiu o trabalho
mais humilde, o de carpinteiro, que era desprezado no seu tempo.
Trabalhando, como homem, Jesus tornou sagrado o trabalho humano e fonte
de santificação. Por isso, o lema de vida de Santo Afonso de Ligório
era: ´Nunca perder tempo´. E São Bento, de Nurcia, tomou como lema da
vida dos mosteiros:´Ora et Labora!´ (Reza e Trabalha!).Ao criar o homem e
a mulher Deus os colocou no seu jardim; era o sinal da familiaridade
com Deus. E lá os colocou ´para o cultivar e guardar´ (Gen 2,15); logo,
´o trabalho não é uma penalidade, mas sim a colaboração do homem e da
mulher com Deus no aperfeiçoamento da criação visível´ (CIC, nº 378).
Falando da vida oculta de Jesus, na família de Nazaré, o Papa Paulo VI
dizia: ´... Uma lição de trabalho. Nazaré, ó casa do ´Filho do
Carpiteiro´, é aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei
severa e redentora do trabalho humano...´ (05/01/1964).
Deus ao criar o
homem e a mulher lhes ordenou: ´Sede fecundos, multiplicai´vos, enchei a
terra e submetei´a´ (Gen 1,28). Este mandamento de Deus, de ´submeter´ a
terra, o homem cumpre pelo trabalho de suas mãos e de sua inteligência.
Ensina o Catecismo que: ´O trabalho é, pois, um dever: ´Quem não quer
trabalhar, também não há de comer´ (2Ts 3,10). O trabalho honra os dons
do Criador e os talentos recebidos. Suportando a pena do trabalho unido a
Jesus, o artesão de Nazaré e o crucificado do Calvário, o homem
colabora de certa maneira com o Filho de Deus na sua obra redentora.
Mostra´se discípulo de Cristo carregando a cruz cada dia, na atividade
que está chamado a realizar. O Trabalho pode ser um meio de santificação
e uma animação das realidades terrestres no Espírito de Cristo´ (CIC nº
2427).O homem é, ao mesmo tempo, o autor e o destinatário do trabalho. É
dele que tira o seu sustento e presta serviço à comunidade humana.
Portanto, a primeira maneira de vivermos bem o ´mandamento do amor´, é
trabalhando bem para servir bem àqueles que se beneficiam do nosso
trabalho. Jesus nos deixou como modelo a sua vida de serviço. Disse
muito claramente: ´O Filho do homem não veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por muitos´ (Mt 20,28). Esta é a
expressão prática do amor, servir, servir até com a própria vida. E,
para todos nós, a primeira maneira de servir é trabalhando bem, já que é
pelo trabalho que servimos aos outros. Não podemos dividir a nossa vida
em duas dimensões, uma religiosa que se desenvolve na igreja, nas horas
de oração e de Encontros, e outra, que é a vida do trabalho, como se
uma fosse sagrada e a outra profana. Não. Isso é um grave engano. Toda a
nossa vida é sagrada, tanto a espiritual quanto a profissional. Nada é
profano em nossa vida. Santo Inácio de Loyola fez a bela síntese do
trabalho e da oração dizendo: ´Rezai como se tudo dependesse de Deus e
trabalhai como se tudo dependesse de vós´. Sem o trabalho do homem não
existem o pão e o vinho que, na mesa eucarística, se transformam no
Corpo e no Sangue de Cristo. Sem o trabalho do homem não teríamos o pão
de cada dia na mesa, a roupa, a casa, o transporte, o remédio, a
cultura, etc. Tudo que chega a nós é fruto do trabalho de alguém; é por
isso que o labor é santo e nos santifica quando realizado com fé,
conforme a vontade de Deus. São Domingos Sávio, aquele belo santo
salesiano de 14 anos, dizia que: ´Ser santo é cumprir bem os deveres e
ser alegre´. É uma bela síntese: ´trabalhar com alegria´ para ser santo.
Sem dúvida esta é uma maneira simples e bela de dar glória a Deus
continuamente, e chegar à santidade. O Fundador do ´Opus Dei´ dizia:
´enquanto houver homens sobre a terra; por muito que se alterem as
técnicas de produção, haverá sempre um trabalho humano que os homens
poderão oferecer a Deus, que poderão santificar´. E repetia aos seus que
´as realidades temporais são santificáveis e santificantes´; isto é, o
homem santifica o trabalho ( a oficina, a escola, a fábrica, etc). e o
trabalho santifica o homem. Se isso não fosse verdade, nossa vida seria
absurda, pois passamos a maior parte dela trabalhando. Nós leigos,
sobretudo, somos chamados a santificar o mundo, e isso deve ser feito
sobretudo no mundo do trabalho.
O Concilio Vaticano II disse que: ´É
específico dos leigos, pela sua própria vocação, procurar o Reino de
Deus exercendo as funções temporais e ordenando´as segundo Deus... A
eles, portanto, cabe de maneira especial iluminar e ordenar de tal modo
todas as coisas temporais, às quais estão intimamente unidos, que elas
continuamente se façam e cresçam segundo Cristo e contribuam para louvor
do Criador e Redentor´( LG, 31).Pelo Trabalho, justo, honesto e bem
realizado, temos a missão de santificar o mundo, a família, a fábrica, a
política, a universidade, a econômia, a música, a arte, a pesquisa,
etc. Tudo isso é o ´mundo do trabalho´ que devemos santificar e ser
santificados por ele. Para nós leigos, portanto, o caminho normal,
ordinário, de santificação e de apostolado é o trabalho. Os primeiros
cristãos não se afastaram do mundo para viverem o Evangelho; mas
continuavam a viver no meio da sociedade. Como dizia Mons. Escrivá, é
preciso ´santificar o trabalho, santificar´se no trabalho e santificar
pelo trabalho´. Aos olhos de Deus todos os trabalhos têm o mesmo valor,
são todos da mais alta importância, o que vale é o amor com que ele é
realizado. Não importa se alguém é ministro ou faxineiro, o que importa é
que cada um se santifique pelo trabalho que está apto a fazer.
Santificar o trabalho é dar glória a Deus por meio dele. São Paulo disse
aos coríntios: ´Quer comais ou bebais ou façais qualquer outra coisa,
façais tudo para a glória de Deus´ (1Cor 10,31). Se até o simples comer e
beber devem dar glória a Deus, quanto mais o trabalho!Aos colossenses
São Paulo explica mais claro ainda: ´Tudo quanto fizerdes, por palavra
ou por obra, fazei´o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a
Deus Pai´ (Col 3,17).É preciso notar bem esse ´tudo quanto fizerdes´,
nada fica de fora, nada é profano na nossa vida. Tudo deve ser feito ´em
nome do Senhor´, isto e’,´Nele´ e ´por Ele´, para dar graças ao Pai. Um
pouco adiante o Apóstolo insiste novamenete: ´Tudo o que fizerdes,
fazei´o de bom coração, como para o Senhor e não para os homens. Sabeis
que recebereis como recompensa a herança das mãos do Senhor. Servi ao
Senhor Jesus Cristo´ (Col 3,13).Essas palavras são muito importantes e
merecem uma profunda meditação. Mais uma vez o Apóstolo repete: ´tudo o
que fizerdes´, nada pode ficar de fora. ´Fazei´o de bom coração´, quer
dizer, fazer com amor e não por interesse; e ´como para o Senhor não
para os homens´. Aqui está o ponto mais importante. Tudo o que fazemos
deve ser feito ´para o Senhor´. Não importa o que seja, se é grande ou
pequeno, deve ser feito tendo o Senhor como o ´Patrão´. Se você é
lavadeira, então lave cada camisa ou cada calça, como se o próprio Jesus
fosse vesti´las. Se você, cosinha, faça a comida como se o Senhor fosse
sentar´se à mesa daqui a pouco, para comer essa comida. Se você é
professor, dê a sua aula como se Jesus fosse um aluno que quer aprender.
Se você é um médico, atenda cada paciente como se o próprio Jesus fosse
o doente. É isso que São Paulo quer nos ensinar quando diz que ´tudo
deve ser feito de bom coração, como para o Senhor, e não para os
homens´. É claro que com essa ´nova ótica´, faremos o trabalho da melhor
maneira possível, com todo o talento, cuidado, esmero, dedicação,
competência, honestidade, pontualidade... perfeição, porque eu o faço
para o ´meu Senhor´. Isto santifica.Quando trabalhamos assim, em casa ou
na rua, toda a vida muda de sentido, e toda ela se torna perfeitamente
sagrada, pois é vivida plenamente para Deus.
É importante também notar o
que São Paulo diz a seguir: ´Sabeis que recebereis como recompensa a
herança das mãos do Senhor´. Que ´herança´ é essa que o próprio Senhor
nos entregará? É a vida eterna, o céu, o premio da bem´aventurança
eterna, por termos sido ´fiéis no pouco´. Isto mostra que cada minuto do
nosso labor aqui na terra, vivido por amor a Deus, com ´reta intenção´
de agradá´lo, se transforma em semente de eternidade. É a recompensa que
o próprio Senhor dará a cada servo bom e fiel que assim tiver vivido a
sua vida. Daí a importância de não se perder tempo, não jogar a vida
fora sem nada fazer. Portanto, o trabalho só será maravilhoso aos nossos
olhos quando adquirirmos essa nova concepção da sua grandeza. Então não
trabalharemos apenas por causa do salário a receber no final do mês, ou
porque o chefe está vigiando, ou porque ele me dará uma posição social
de destaque, ou ainda porque eu sou obrigado a fazê´lo. Não.
Trabalharemos para servir a Jesus, servindo os irmãos. O Apóstolo
conclui dizendo: ´Servi a Jesus Cristo´. Somente quando entendermos que
tudo o que fazemos ´ principalmente as atividades penosas ´ devem ser
feitas ´para o Senhor´, é que estaremos trabalhando bem e fazendo dele
algo santo e que nos santifica. Somente assim poderemos ´pôr Cristo no
cume de todas as atividade humanas´, como deve ser. O mundo é bom,
porque foi todo ele feito por Deus. Foi o pecado que o desfigurou. Mas,
pelo trabalho de cada um, conscientemente realizado, como explicado
acima, podemos restituir ao mundo a beleza, a bondade e a ordem, com que
Deus o criou. Assim, o trabalho fica sendo ´a marca do homem na
criação´, tornando´se assim um grande colaborador de Deus. Daí a
altíssima dignidade do trabalho humano aos olhos de Deus. Por outro lado
o trabalho assim vivido, para Deus, nos santifica, pois ele se torna o
lugar privilegiado onde todas as nossas virtudes se desenvolvem e todos
os vícios são vencidos. É por isso que D.Bosco dizia que mente vazia é
oficina do diabo.
Antes de tudo o trabalho faz crescer a caridade, já
que, por amor a Deus, empregamo´nos com bondade a serviço dos irmãos. A
fé cresce, pois tudo é feito para Deus; e, nesse sentido, o trabalho se
transforma em oração. A esperança é desenvolvida, já que esperamos
receber das mãos do ´bom Patrão´, a herança que nos tem preparada, como
uma recompensa merecida. A fidelidade no trabalho desenvolve as virtudes
da paciência, da perseverança, da prudência, da lealdade, da humildade,
etc. Se não faltar amor, o fato de termos de realizar todos os dias as
mesmas coisas, isto, no entanto, não será para nós algo sem interesse,
sem importância ou monótono. Se o amor está presente tudo é novo a cada
dia. É pelo trabalho profissional que realizamos a vocação de ´sal da
terra´ e ´luz do mundo´ entre os colegas, amigos, empregados, alunos,
clientes, etc. O trabalho bem feito é um bom exemplo, por isso o cristão
tem que realizá´lo com toda a perfeição possível, empregando todos os
talentos. Um mau trabalhador é um mau cristão. Um operário displicente é
um mau cristão. Um professor cristão e relapso é um contra testemunho
cristão... Para santificar o trabalho e ser santificado por ele, é
preciso fazê´lo com perfeição. Por isso, é de grande importância a busca
de um constante aperfeiçoamento profissional. Jesus disse que devemos
´ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito´ (Mt 5,48). Isto vale
também para a nossa atividade profissional.
Infelizmente muitos cristãos
pensam que o mundo do trabalho está dissociado da perfeição e santidade
a que Deus nos chama. É exatamente no dia´a´dia do trabalho que a
santidade é fabricada em nós, entendida como uma progressiva
´identificação´ com Deus, já que fomos criados à ´sua imagem e
semelhança´. ´Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as
vossas boas obras, e glorifiquem vosso pai que está nos céus.´(Mt 5,16).
É principalmente com o trabalho bem feito, exemplar, que brilhará a luz
do nosso testemunho cristão diante dos colegas, e Deus será
glorificado. Um mau trabalhador é um mau cristão. Uma dona de casa
relaxada e preguiçosa não é uma boa cristã. E assim, poderíamos
multiplicar os casos ... Não basta viver a santidade na igreja, no grupo
de oração e nos Encontros; acima de tudo é preciso ser santo na rua e
no trabalho. O trabalho é uma exigência da essência do ser humano.
Podemos dizer que o homem foi feito para trabalhar. Só ele recebeu de
Deus a inteligência que projeta, e as mãos que constroem . Nenhum outro
ser vivo recebeu de Deus, mãos e inteligência. Pelo trabalho o homem se
realiza, se constrói e constrói o mundo e os outros. Através dele
torna´se superior aos demais seres criados, e participa gloriosamente da
obra do Criador. É importante ressaltar aqui que ´o trabalho é para o
homem, e não o homem para o trabalho´, isto é, o homem deve ser
engrandecido pelo seu trabalho e não um escravo dele, ou um simples
instrumento de produção. A Constituição ´Gaudium et Spes´ do Vaticano II
diz belamente que: ´Longe de pensar que as obras do engenho e do poder
humano se opõem ao poder de Deus e de considerar a criatura racional
como rival do Criador, os cristãos, ao contrário, estão bem persuadidos
de que as vitórias do gênero humano são um sinal da grandeza de Deus e
são fruto do seu desígnio inefável´ (GS, 34). O trabalho, seja
intelectual, seja manual, acarreta sempre o cansaço. Suportando a fadiga
do trabalho em união com Cristo ressuscitado, colaboramos com o Senhor
na redenção do mundo, conforme diz São Paulo: ´Completo na minha carne o
que falta à paixão de Cristo´, no seu corpo que é a Igreja (Col
1,24).Cada um deve buscar a santidade na sua própria vida. Não é preciso
mudar o rumo da existência. São Paulo insistia nisso: ´Irmãos, cada um
permaneça diante de Deus na condição que estava quando Deus o chamou´ (1
Cor 7,20´24). O que importa é viver bem, a cada dia, todo dia, sem
perder tempo e sem jogar a vida fora, pois ela pertence a Deus e aos
outros.
DO Livro: ´SEDE SANTOS!´´ Do Prof. Felipe de Aquino (
www.cleofas.com.br)