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01 abril 2018

Livros para compreender a História da Igreja




Quero trazer aqui uma lista de livros básicos para compreender a História da Igreja:


  • KIT - História da Igreja (O Kit é composto por 3 livros do Prof. Felipe Aquino: História da Igreja - Idade Antiga; História da Igreja - Idade Média; História da Igreja - Idade Moderna e Contemporânea)


Ou você pode obtê-los separadamente:




Outros em específicos momentos e enfoques:




06 outubro 2017

Brevíssima história do Rosário




Dia 7 de Outubro é o dia de Nossa Senhora do Rosário. Por isso fiz um levantamento para quem desejar conhecer a história desta santa devoção. Abaixo trago um texto com um brevíssimo resumo da história e no final indico alguns links e livros para quem deseja aprofundar. O Rosário foi construído ao longo de anos de tradição mística, não nasceu completo como o conhecemos hoje num dia só, por uma única pessoa. Conhecer sua história é valorizar a riqueza da nossa Santa Tradição.




Por João César das Neves (Professor UCP):

"O Nascimento do Rosário O Rosário é uma oração cuja origem se perde nos tempos. A tradição diz que foi revelado a S. Domingos de Gusmão (1170-1221), numa aparição de Nossa Senhora, quando ele se preparava para enfrentar a heresia albigense. Parece não haver muitas dúvidas de que o Rosário nasceu para resolver um problema importante dos novos frades mendicantes. De facto, os franciscanos e dominicanos estavam a introduzir um novo tipo de ordem religiosa no século XII, em alternativa aos antigos monges, sobretudo Beneditinos e Agostinhos. Estes, nos seus mosteiros, rezavam todos os dias os 150 salmos do Saltério. Mas os mendicantes não o podiam fazer, não só por causa da sua pobreza e estilo de vida, mas também porque em grande parte eram analfabetos. Assim nasceu, nos dominicanos, o Rosário, o “saltério de Nossa Senhora”, a “Bíblia dos pobres”, com 150 Avé-Marias.

Mas é preciso dizer que, nessa altura, não havia ainda a Ave Maria. Já desde o século IV se usava a saudação do arcanjo S. Gabriel (Lc 1, 28) como forma de oração, mas só no século VII ela aparece na liturgia da festa da Anunciação como antífona do Ofertório. No século XII, precisamente com o Rosário, juntam-se as duas saudações a Maria, a de S. Gabriel e a de S. Isabel (Lc 1, 42), tornando-se uma forma habitual de rezar. Em 1262 o Papa Urbano IV (papa de 1261-1264) acrescenta-lhes a palavra “Jesus” no fim, criando assim a primeira parte da nossa Ave Maria. Só no século XV se acrescenta a segunda parte de súplica, tirada de uma antífona medieval. Esta fórmula, que é a actual, torna-se oficial com o Papa Pio V (1566-1572). Grande reformador no espírito do concílio de Trento (1545-1563), S. Pio V é o responsável pela publicação do Catecismo, Missal e Breviário Romanos surgidos do Concílio, que renovam toda a vida a Igreja. Foi precisamente no Breviário Romano, em 1568, que aparece pela primeira vez na oração oficial da Igreja a Avé-Maria.

A Batalha de Lepanto e a festa de Nossa Senhora do Rosário O contributo de S. Pio V, um antigo dominicano, para a história do Rosário não se fica por aqui. O grande reformador criou também o último grande momento da antiga Cristandade, a unidade dos reinos cristãos à volta do Papa. Os turcos otomanos, depois do cerco e queda de Constantinopla em 1453, o fim oficial da Idade Média, e das conquistas de Suleiman, o Magnífico (1494-1566, sultão desde 1520), estavam às portas da Europa. Dividida nas terríveis guerras entre católicos e protestantes, a velha Europa não estava em condições de resistir. O perigo era enorme. Além de apelar às nações católicas para defender a Cristandade, o Papa estabeleceu que o Santo Rosário fosse rezado por todos os cristãos, pedindo a ajuda da Mãe de Deus, nessa hora decisiva. Em resposta, houve um intenso movimento de oração por toda a Europa. Finalmente, a 7 de Outubro de 1571 a frota ocidental, comandada por D. João de Áustria (1545-1578), teve uma retumbante vitória na batalha naval de Lepanto, ao largo da Grécia. Conta-se que nesse mesmo dia, a meio de uma reunião com os cardeais, o Papa levantou-se, abriu a janela e disse “Interrompamos o nosso trabalho; a nossa grande tarefa neste momento é a de agradecer a Deus pela vitória que ele acabou de dar ao exército cristão”. A ameaça fora vencida. Este foi o último grande feito da Cristandade. Mas o Papa sabia bem quem tinha ganho a batalha. Para louvar a Vitoriosa, ele instituiu a festa litúrgica de acção de graças a Nossa Senhora das Vitórias no primeiro domingo de Outubro. Hoje ainda se celebra essa festa, com o nome de Nossa Senhora do Rosário, no memorável dia de 7 de Outubro.

A partir de então, o Rosário aparece em múltiplos momentos da vida da Igreja. Já no fresco do Juízo Final, pintado por Miguel Ângelo (1475-1564) na Capela Sistina do Vaticano de 1536 a 1541, estão representadas duas almas a serem puxada para o céu por um Terço. São as almas de um africano e de um asiático, mostrando a universalidade missionária da oração".

A Imaculada Conceição rezou o Terço com Bernadette Soubirous (1844-1879) nas aparições de Lourdes em 1858. O Papa Leão XIII, “Papa do Rosário”, (como lhe chama a recente Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae do Papa São João Paulo II, n.º 8) dedicou mais de 20 documentos só ao estudo desta oração, incluindo 11 encíclicas.

O Beato Bártolo Longo (1841-1926) é um os grandes divulgadores do Rosário, como o refere a recente Carta Apostólica (n.º 8, 15, 16, 36, 43). Antigo ateu, espírita e sacerdote satânico, depois da sua conversão viu na intercessão de Nossa Senhora a sua única hipótese de salvação. Sendo advogado, em 1872 deslocou-se à região de Pompeia por motivos profissionais e ficou chocado com a pobreza, ignorância, superstição e imoralidade dos habitantes dos pântanos. Entregou-se a eles para o resto da vida. Arranjou um quadro da Senhora do Rosário, que fez vários milagres e criou em 1873 a festa anual do Rosário, com música, corridas, fogo de artifício. Construiu uma igreja para essa imagem, que se veio a tornar no Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. Fundou uma congregação de freiras dominicanas para educar os órfãos da cidade, escreveu livros sobre o Rosário e divulgou a devoção dos «Quinze Sábados» de meditação dos mistérios.

Outro grande momento da divulgação do Terço é, sem dúvida, Fátima. “Rezar o Terço todos os dias” é a única coisa que a Senhora referiu em todas as suas seis aparições. A frase repete-se sucessivamente, quase como uma ladainha, manifestando bem a sua urgência e importância. Na carta do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, num dos primeiros documentos escritos sobre Fátima, afirma-se “Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais pequena alteração. A base principal que de tudo, o que me dizem, deduzi é «que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço»”

A história do Rosário não pode terminar sem referir um momento decisivo desta evolução. A escolha do Papa João Paulo II de celebrar as suas bodas de prata pontifícias com o Rosário, acrescentando-lhe os cinco mistérios luminosos, é um marco importante na devoção. Mas a ligação do Papa a esta oração não é de hoje, como ele mesmo diz na Carta: “Vinte e quatro anos atrás, no dia 29 de Outubro de 1978, apenas duas semanas depois da minha eleição para a Sé de Pedro, quase numa confidência, assim me exprimia: «O Rosário é a minha oração predilecta. Oração maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade.»”(n.º 2)"


(Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/dossier/uma-breve-historia-do-rosario-da-virgem-maria/)



Para um maior aprofundamento recomendo:

O Rosário - A sua origem e a sua intenção primordial - Site dos monges Cartuxos

Livro "A História do Rosário" - Anne Vail - Edições Loyola

Livro "História do Rosário" - Emanuele Giulietti - Editora Paulus

Capítulo sobre uma breve história do Rosário do livro "O Rosário de Nossa Senhora" do Padre João Medeiros Filho

Carta Apostólica Rosrium Virginis Mariae





24 junho 2017

Como surgiu o Credo


Irmãos, trago aqui este texto sobre o Credo na História da Igreja pelo Prof. Felipe Aquino.


O Credo católico foi sendo elaborado a partir do ensinamento dos Apóstolos, daquilo que aprenderam com Jesus; por isso se chamou Símbolo dos Apóstolos, que acabou se transformando na Oração, expressão da fé católica. Surgiram os Credos batismais, e outros mais elaborados. O Credo é o Símbolo da fé, a coletânea das principais verdades sobre a fé. Daí o fato dele servir primeiramente como ponto de referência fundamental da catequese.

O Símbolo dos Apóstolos é o resumo fiel da fé cristã. É o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma. Segundo Santo Ambrósio: “Ele é o símbolo guardado pela Igreja Romana, aquela onde Pedro, o primeiro Apóstolo, teve sua Sé e para onde ele trouxe a comum expressão de fé” [sententia communis= opinião comum] (CIC §194). Desde a origem da Igreja os Apóstolos exprimiram e transmitiram a fé em fórmulas breves e normativas para todos, em resumos orgânicos e articulados, destinados, sobretudo, aos candidatos ao Batismo. São Cirilo de Jerusalém (†386) disse em suas Catequeses:

“Esta síntese da fé não foi elaborada segundo as opiniões humanas, mas da Escritura inteira recolheu-se o que existe de mais importante, para dar, na sua totalidade, a única doutrina da fé. E assim como a semente de mostarda contém em um pequeníssimo grão um grande número de ramos, da mesma forma este resumo da fé encerra em algumas palavras todo o conhecimento da verdadeira piedade contida no Antigo e no Novo Testamento” (CIC §186).

Foram várias as formas de profissões ou Símbolos da fé na História da Igreja em resposta às necessidades das diversas épocas; temos o Credo Niceno-constantinopolitano (325); o Símbolo Quicumque, de Santo Atanásio (†373), as profissões de fé de certos Concílios (Toledo; Latrão; Lião; Trento) e de alguns Papas, como a Fides Damasi – Profissão de Fé de São Dâmaso (366-384) – ou o Credo do Povo de Deus de Paulo VI (1968). Nenhum dos Símbolos da fé das diferentes etapas da vida da Igreja pode ser considerado ultrapassado e inútil (cf. CIC §193).

Clique aqui para ler o que o Catecismo diz sobre o Credo e as duas versões, a apostólica e a Niceno-Constantinopolitano.

Mais sobre o Credo

23 junho 2017

O Apostolado de São Paulo

Irmãos, continuando a reflexão sobre história da Igreja, repasso aqui este excelente texto do Prof. Felipe Aquino sobre a vida do Apóstolo São Paulo.



São Paulo (5-67) teve um papel ímpar na história do Cristianismo nascente. Os Atos dos Apóstolos, narrado por São Lucas, companheiro de São Paulo, conta com detalhes a vida e a missão do Apóstolo dos gentios. Sugiro a leitura do excelente livro: Paulo de Tarso (Holfner, 1994), para quem desejar se aprofundar em sua vida e obra.

Paulo era judeu da Diáspora, nascido em Tarso (Cilícia), Turquia de hoje; recebeu a cultura grega que dominava a região. Seu pai comprou a cidadania romana, o que dava a ele a possibilidade de viajar por todo o Império Romano livremente. Sabia o grego, hebraico e latim. Aos 15 anos de idade foi para Jerusalém; estudou a Bíblia e as tradições judaicas na escola de Gamaliel (At 5,34; 22,3; 26,4) e tornou-se rabino. Deve ter aprendido a profissão de curtidor de couro, seleiro e fabricante de tendas. Era fariseu radical. Por volta do ano 33-34, aos 28 anos, era severo perseguidor dos cristãos, tendo aprovado o martírio de Santo Estêvão; se converteu quando o próprio Senhor lhe apareceu na estrada de Jerusalém para Damasco, onde foi batizado por Ananias (cf. At 9,19s). Cristo o escolheu para levar a Boa-nova aos gentios, os gregos pagãos. “Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome” (At 9,16). São Lucas relata três vezes o acontecimento fundamental para a vida da Igreja que foi a conversão de São Paulo (At 9,1s; 22,5-16; 26,9-18); e também aparece em Gálatas (cf. 1,12-17). Josef Holzner, citando Feine, um dos melhores conhecedores do Apóstolo, supõe que São Paulo pudesse estar aos pés da Cruz de Jesus com outros sacerdotes judeus, e imagina que a futura conversão de Paulo possa ser uma graça obtida aí no Calvário, como a do centurião romano que exclamou: “Verdadeiramente esse homem era filho de Deus” (Mc 15,39) (Holzner, 1994, p. 63).

Em seguida à sua conversão, Paulo permaneceu num lugar perto de Damasco chamado Arábia (33-36), por três anos. Certamente neste retiro Paulo compreendeu o que era ser verdadeiramente um crente e orar de verdade. Entendeu o que ele chamava de zelo pelas tradições paternas (Gl 1,14). Então, experimenta a verdadeira fé, [pistis] que lhe dá sentido a todas as coisas e acalma seu coração inquieto. Ele então experimenta que aquele que está em Cristo é uma nova criatura (2Cor 5,17).

Toda a teologia de Paulo está baseada na união com Cristo, que é o princípio, o meio e fim de toda a doutrina cristã. Para ele não houve a ‘crise’ da teologia moderna que contrapõe um Cristo da fé com o da História. “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

A teologia de Paulo foi tão eloquente que alguns que a compreenderam mal, tentaram jogá-la contra os Evangelhos, como se fossem incompatíveis; porém, a Igreja, assistida e guiada pelo Espírito Santo soube ver aí o ensinamento inspirado por Deus. Paulo de certa forma trazia do judaísmo a semente de toda a fé católica que iria então desabrochar nele com a graça de Cristo.

Assim Jesus preparou esse homem de fogo para ser aquele que levaria o Seu nome aos pagãos, aos reis e aos filhos de Israel tendo sido apreendido por Cristo (Fl 3,12). Ele sentiu a mão do Senhor pesar sobre ele e sentiu sua vocação definida: Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho! (1Cor 9,16).

Toda a bagagem bíblica que Paulo adquiriu como rabino, discípulo de Gamaliel, foi muito importante para que a luz de Cristo jorrasse em sua mente e fizesse dele o maior teólogo cristão de todos os tempos, em cujos escritos todos os demais teólogos se debruçaram.

Nos anos 36-37 aproximadamente, Paulo se encontrou com Pedro e Tiago em Jerusalém (Gl 1,18) e depois voltou para Tarso (At 9,26-30), expulso de Jerusalém. Ali ficou por cerca de 5 anos, até o ano 42. Parece-nos que Paulo passou alguns anos ainda em silêncio, aguardando um sinal e um chamado de Deus. As palavras do Profeta: Esperar em silêncio (Lm 3,26), podem ter sido para ele um programa de vida neste período. Certamente Paulo, afoito, teve de aprender uma frase que a Bíblia repete em vários lugares: Espera no Senhor (Sl 26), Sofre as demoras de Deus (Eclo 2,3).

Só os grandes homens são capazes de colocar a vontade de Deus acima de suas vontades.

Paulo era um erudito, diferente de Pedro e dos demais Apóstolos. É importante notar que Deus usou todos os talentos humanos desse homem para sua enorme missão apostólica. Ele aprendeu a eloquência de discutir e dominar a língua grega. Ao falar no Areópago de Atenas, aos pés do Partenon (At 17,28), ele cita uma passagem do seu compatriota Arato, que também consta na oração do poeta Cleanto a Júpiter: “Somos da sua raça”, e outra de Epimênedes: “Pois nele vivemos, nos movemos e somos”.

Na primeira Carta aos coríntios (15,32) ele cita duas frases tiradas de Menandro: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”, e também o provérbio: “As más companhias corrompem os costumes”. Na Epístola a Tito, seu fiel bispo de Creta, ele cita Epimênedes: “Os cretenses são sempre mentirosos, más bestas, ventres preguiçosos” (1,12). Paulo usou toda essa cultura grega do seu tempo a serviço da fé. Foi grande o trabalho intelectual do Apóstolo dos gentios; suas treze Cartas mostram isso. Certamente tudo isso foi fruto desses longos anos de meditação, estudo e oração.

Aí nasceu a teologia paulina que hoje bebemos. Thomas Edson disse que em todo gênio há 95% de transpiração e 5% de inspiração. Paulo conheceu a Cristo e o seu Evangelho na ‘contemplação do mistério de Cristo’, mas isso não dispensou a sua base cultural e religiosa anterior. Ele diz aos gálatas e coríntios sobre isso: “Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11-12). Nesta época, Barnabé, talvez seu primo, que era discípulo em Antioquia, a importante comunidade cristã fundada por São Pedro, o levou para lá. No ano 44, Paulo e Barnabé foram encarregados pela comunidade de Antioquia para levar auxílio financeiro aos irmãos pobres de Jerusalém. Antioquia era a terceira maior cidade do Império Romano, após Roma e Alexandria, tinha mais de quinhentos mil habitantes na época; era a residência do legado imperial da Síria. Estava destinada a ser depois de Jerusalém, a segunda mãe da Igreja nascente. Paulo aí permaneceu vinte anos e partiu para evangelizar o mundo pagão. Era o lugar ideal para a expansão da fé cristã; seria a “Paris” do Oriente. Renan retratou Antioquia nos seguintes termos:

“Era uma mistura jamais vista de charlatães, comediantes, bufões, feiticeiros, sacerdotes impostores, bailarinas, heróis de circo e de teatro; uma cidade de corridas, jogos de gladiadores, bailes, cortejos e bacanais; um luxo desenfreado, toda a loucura do Oriente, as superstições mais doentias e as orgias mais fantásticas. Era o sonho de um fumante de ópio [...]” (Holzner, p. 91).

É nessa cidade, que tanto precisava de Jesus Cristo, que o Cristianismo cresceu. Nela as divindades sírias e os seus cultos faziam do assassinato e da impureza um serviço divino. O culto de Adônis e Astarte era a divinização do vício, e crianças e adultos lhe eram sacrificados e seus templos eram locais de prostituição. Antioquia era a capital internacional do vício. São Paulo logo começou a pregar; foi à Jerusalém e foi recebido pela comunidade cristã: “permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e pregando destemidamente o nome do Senhor” (At 9,28). E ali foi logo perseguido, e Jesus lhe diz: “Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque as gentes daqui não receberão o seu testemunho a meu respeito [...] vai porque eu te enviarei para longe aos gentios” (At 22,17s). Cristo guiava Paulo pelas mãos. Em Antioquia ele teve um êxtase marcante que narra na Segunda Carta aos coríntios; e que foi uma das maiores lições que recebeu. Paulo esteve com Pedro, como conta aos gálatas, depois de seu retiro nas Arábias: “Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias. Dos outros Apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor” (cf. Gl 1,18-19). Segundo os Atos dos Apóstolos (9,26; 11,29s; 15,2) São Paulo fez três viagens a Jerusalém antes de visitar por duas vezes a Galícia (Gl 1,19; At 11,29; 16,6; 18,23). O grande Apóstolo realizou três grandes viagens missionárias em terras pagãs, fundando comunidades cristãs na Ásia Menor e na Grécia. Ele não impunha aos pagãos a circuncisão nem as obrigações da Lei de Moisés, mas concedia-lhes logo o Batismo depois de evangelizados. Por isso foi fortemente perseguido pelos judeus e também sofreu forte oposição dos cristãos vindos do judaísmo; os chamados “judaizantes”, que queriam que os pagãos fossem circuncidados antes do Batismo e abraçassem a Lei de Moisés.

A Primeira Viagem Missionária de São Paulo (At 13,1-15-35) foi nos anos 45 a 48, por inspiração do Espírito Santo. São Paulo, São Barnabé e São Marcos (o evangelista) foram enviados a pregar aos gentios (At 13,1-3). Partiram para a ilha de Chipre, estiveram nas cidades de Salamina e Pafos, depois Perge da Panfília [onde Marcos os deixou], Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe [atual Turquia]. Voltaram a Antioquia e depois foram para Jerusalém.

É indispensável que o leitor releia atentamente os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo para se inteirar detalhadamente da vida e de toda a fabulosa ação apostólica do grande Apóstolo dos gentios. Nesses escritos São Paulo traçou as bases de toda a teologia católica. Lendo-as compreendemos aquilo que Jesus disse aos Apóstolos na Última Ceia: “Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,12-13). Por meio de São Paulo, doutor em Sagrada Escritura, o Espírito Santo nos ensinou esta doutrina que Jesus não pôde ensinar aos Apóstolos.

Em 49 houve o importante Concílio de Jerusalém (At 15), quando Paulo e Barnabé foram defender junto aos Apóstolos a não necessidade da circuncisão para os gentios convertidos. Esta foi uma decisão fundamental para que o Cristianismo se desvinculasse do Judaísmo e não corresse o risco de se transformar apenas em mais uma facção judaica.

Depois disso, Paulo voltou para Antioquia e partiu para a segunda viagem apostólica de 49 a 52 (At 15,36; 18,22), onde pregou alegremente que os gentios não precisavam mais da circuncisão. Paulo acompanhado por Silvano passou por Derbe, Listra [onde se lhes juntou o jovem Timóteo], Icônio e Antioquia. Chegaram à Galácia, Trôade [onde se lhes juntou a Lucas], Neápolis, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas e Corinto, onde permaneceram dois anos e conheceram o procônsul Galião no ano 52, tendo depois voltado a Antioquia. De 49 a 50 ficaram em Filipos, de 50 a 51 em Tessalônica e Bereia; de 51 a 52 em Atenas e Corinto, onde escreveu as duas cartas aos tessalonicenses.

A terceira viagem missionária de São Paulo foi de 53 a 58. Paulo partiu de Antioquia com Tito, Timóteo, Gaio e Aristarco (At19,29). Seguiram para Éfeso onde Paulo permaneceu durante três anos (At 18,18-19), pregando na escola do reitor Tirano em Éfeso. Em Éfeso, enorme cidade com trezentos mil habitantes, capital da província romana da Ásia Menor, foram perseguidos pelos pagãos e seguiram para Laodiceia, Colossos, Hierápolis, Trôade, Macedônia, Antioquia e depois para Jerusalém (At 20,3; 21,16).

Paulo ficou em Éfeso de 54 a 57, onde escreveu a Carta aos Gálatas por volta de 54-55; a primeira Carta aos coríntios, em 56; em 57 escreveu a Segunda Carta aos coríntios e fugiu de Éfeso; entre 57-58 escreveu a Carta aos romanos e em 58 fez a última viagem a Jerusalém.

No fim desta terceira viagem, logo que Paulo entrou em Jerusalém, os judeus voltaram ao ataque: foi preso (At 21,27s), compareceu diante do Sinédrio e para escapar da morte foi transferido para Cesareia pelas autoridades romanas. Aí compareceu diante do procurador Félix e o rei Herodes Agripa. Depois de dois anos (58- 60), Paulo apelou para ser julgado pelo imperador (At 25,11) em Roma. No ano 60, acompanhado por São Lucas, partiu para Roma, preso e guardado por um centurião. Depois de terem naufragado na ilha de Malta, onde passaram o inverno, chegaram a Roma em 61. De 61 a 63 teve o seu primeiro cativeiro em Roma; aí escreveu as Cartas do cativeiro: Filêmon, Efésios, Colossenses e Filipenses.

Em Roma Paulo foi inocentado e solto. De 63 a 66 deve ter feito viagens pelo Oriente e Espanha como era seu desejo (Rm 15). Em 66 a 67 escreveu as epístolas pastorais: a primeira Carta a Timóteo e Tito. Em 67 teve o seu segundo cativeiro em Roma onde escreveu a segunda Carta a Timóteo e sofreu o martírio com São Pedro sob o imperador Nero (54-68).



15 junho 2017

Resumo do Século I



Trago agora uma organização simples dos acontecimentos do Século I, conforme estamos estudando no curso do Professor Felipe Aquino sobre a História da Igreja. Um século de consolidação das raízes do cristianismo, do rompimento com o judaísmo, de muitos martírios e perseguições e o início de algumas heresias.

Segue abaixo uma linha do tempo, ano a ano de alguns dos acontecimentos principais neste século inicial:

SÉCULO I

Ano 7 ou 6 antes da nossa era  - (isto para a maioria dos historiadores; mas há outras tentativas de datação, que variam entre 7 a.c. e 7 d.C.): aconteceu o nascimento de jesus em Belém.
(Em 525, Dionísio, o Pequeno, monge em Roma, é o primeiro a fazer começar a nossa história pelo nascimento de Jesus; mas, na fixação do ano do nascimento, cometeu um engano).

Ano 26 a 36 – Pôncio Pilatos é procurador da Judéia.

Cerca de 29 - Aparição de João Batista (= o Batizador).

Cerca de 30 - Crucificação de Jesus.

Cerca de 40 - Morte de Fílon de Alexandria, judeu helenista, filósofo da religião. Suas numerosas obras (conservadas quase integralmente) consistem, em grande parte, de comentários do Pentateuco; as narrativas bíblicas são interpretadas de maneira alegórica (por exemplo: Adão é o símbolo da razão; Eva, o da sensibilidade). Em 39, Fílon foi a Roma, para conseguir a cidadania romana para os judeus de Alexandria.

Cerca de 42 - Morte de Tiago, o Maior, executado por Heródes Agripa.

Cerca de 50 - Segundo Suetônio (morto ao redor de 150), o imperador Cláudio expulsou "os judeus de Roma porque, por instigação de Chrestos, provocavam constantemente distúrbios" (Vita Claudii 15,4).

Ano 64 - Incêndio de Roma. Quando se suspeitou que o imperador Nero tivesse sido o instigador com vista à realização de seus projetos de novas construções, o imperador acusou os cristãos de serem os incendiários. Muitos deles morreram, para diversão do povo, na arena ou nos jardins de Nero, queimados como tochas vivas para iluminar as noites de festa, e sem que nenhuma prova tivesse sido fornecida da culpa deles. Pedro é martirizado e Lino o sucede na direção da Igreja (Papado).

Ano 66 a 70 - Revolta judaica contra a dominação romana. A insurreição termina com a conquista de Jerusalém por parte de Tito (70) e a destruição do Templo.

Ano 68 - Durante a guerra judaico-romana, Qumrã, centro de essênios, também foi destruído. A seita, cujo apogeu se situa entre o século II e I antes de Cristo, tinha-se separado com vista a uma observância mais estrita da Lei e se tinha instalado perto do mar Morto.

Ano 79 - Lino é martirizado e o sucede no papado Cleto ou Anacleto.

Ano 90 ou 92 - Cleto (ou Anacleto) é martirizado e o sucede Clemente I.


LISTA DE PAPAS

Pedro - até o ano + 64 (ou 67)
Lino - do ano 64 (ou 67) até 79
Cleto/Anacleto - do ano 79 até o ano 90 (ou 92)
Clemente I - do ano 90 (ou 92) até o ano 101


LISTA DE IMPERADORES ROMANOS

Augusto - do ano de 30 a.C. até 14 d.C.
Tibério - de 14 a 37 d.C.
Calígula - de 37 a 41 d.C.
Cláudio - de 41 a 54.
Nero - de 54 a 68.
Galba,Otão e Vitélio - de 68 a 69.
Vespasiano - de 69 a 79.
Tito - de 79 a 81.
Domiciano - de 81 a 96.
Nerva - de 96 a 98.
Trajano - de 98 a 117.



MARTÍRIO DOS PRINCIPAIS APÓSTOLOS

Para finalizar trago aqui uma lista organizada pelo professor Felipe Aquino onde ele lista como foi o martírio dos principais Apóstolo de Cristo:

Segundo a Tradição, assim terminaram as vidas dos apóstolos e evangelistas:


  • Mateus: Foi morto à espada na cidade de Etiópia.
  • Marcos: Foi arrastado pelas ruas de Alexandria e Egito, até expirar.
  • Lucas: Foi enforcado em uma oliveira na Grécia.
  • João: Foi metido numa caldeira de azeite a ferver, em Roma, mas escapou ileso e morreu mais tarde de morte natural, em Éfeso, Ásia Menor.
  • Tiago Maior: Segundo o testemunho da Bíblia, foi degolado em Jerusalém.
  • Tiago Menor: Foi precipitado de um pináculo do templo de Jerusalém ao solo; a seguir, foi esbordoado até morrer.
  • Filipe: Foi enforcado de encontro a um pilar em Hierápolis (Frígia, Ásia Menor).
  • Bartolomeu: Foi esfolado vivo por ordem de um rei cruel.
  • André: Foi crucificado e da cruz pregou ao povo até morrer.
  • Pedro: Foi crucificado de cabeça para baixo, em Roma, durante o reinado de Nero.
  • Paulo: Foi decapitado em Roma, também durante o reinado de Nero.






31 maio 2017

Linhas gerais da História da Igreja



Como tenho me dedicado a estudar a história da Igreja este ano e me juntei a alguns outros irmãos para fazermos um grupo online de estudos, vou trazer algumas postagens aqui a respeito. Trago aqui, como início, uma linha de tempo resumida da história da Igreja. Um esquema inicial, uma visão panorâmica para se compreender como geralmente tem se dividido a história. Cabe ressaltar que esse esquema tem algumas alterações entre alguns historiadores.

A história da Igreja se divide em 4 partes: Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea:

I - HISTÓRIA DA IGREJA ANTIGA (Séc. 1 a 7)

  1. Ano 0 a 313 = Época das perseguições.
  2. Ano 476 = Queda do Império Romano na mão dos Bárbaros
  3. Ano 313 a 692 = Roma começa a reconhecer o cristianismo.

II - HISTÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL (Séc. 8 a 15)

  1. Ano 692 a 1054 = Idade média ascendente; época da reconstrução após as invasões bárbaras.
  2. Ano 1054 a 1294 = Rompimento da Igreja do Oriente, a Igreja Ortodoxa. Alta idade média.
  3. Ano 1294 a 1450 = Baixa idade média; Igreja começa a perder a influência civil e há um empobrecimento da teologia e da espiritualidade. Queda do Império Romano do Oriente.

III - HISTÓRIA DA IGREJA MODERNA (Séc. 15 a 20)

  1. Ano 1450 a 1789 = Surge o Renascimento; O Racionalismo cresce até estourar a Revolução Francesa.
  2. Ano 1789 a 1929 = Da Revolução Francesa até a restauração do estado pontifício.

IV - HISTÓRIA DA IGREJA CONTEMPORÂNEA (Séc. 20...)

  1. Ano 1929 em diante = A partir da restauração do estado pontifício começamos a marcar o período contemporâneo.





O estudo será por século. Nas próximas postagens estarei repassando aqui um resumo de cada século.

27 janeiro 2017

Cursos de História em áudio e vídeo



Como esse ano vou me dedicar ao estudar o básico em história, fiz uma seleção de cursos sobre o tema. 
Recomendamos aqui alguns cursos de história para quem precisa conhecer o básico da história geral, história da igreja entre outros temas:





1 - Revelação e Fé - Padre Paulo Ricardo


2 - Curso Bíblico Antigo Testamento - Pf Felipe Aquino


3 - História Antiga - Landmark


4 - Curso Bíblico Novo Testamento - Pf Felipe Aquino


5 - História Essencial da Filosofia - Olavo de Carvalho


6 - História da Igreja - Idade Antiga - Pf Felipe Aquino


7 - História da Igreja Antiga - Padre Paulo Ricardo


8 - História da Igreja - Idade Média - Pf Felipe Aquino


9 - História da Igreja Medieval - Padre Paulo Ricardo


10 - Templários - Padre Paulo Ricardo


11 - Inquisição - Padre Paulo Ricardo


12 - História da Igreja - Idade Moderna e Contemporânea - Pf Felipe Aquino


13 - A Igreja e o Mundo Moderno - Padre Paulo Ricardo


14 - História Européia - Landmark


15 - História da Igreja - Landmark


16 - História dos EUA - Landmark



17 - O Brasil não foi colônia - IMUB


18 - História do Brasil - Landmark



30 novembro 2016

Declaração sobre o Aborto Provocado feita pela Congregação Para a Doutrina da Fé (1974)

Nesta semana veio à tona o debate sobre o aborto, devido ao fato de a primeira turma do STF afastar prisão preventiva de acusados da prática de aborto. Devido a isso, posto aqui a posição da Igreja Católica sobre o aborto provocado, segundo Declaração da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, de 1974. É um documento que vale a pena ser lido com atenção.

"DECLARAÇÃO 
SOBRE O ABORTO PROVOCADO


I. 
INTRODUÇÃO

1. O problema do aborto provocado e da sua possível liberalização legal tornou-se, um pouco em toda a parte, tema de discussões apaixonadas. Tais debates seriam menos graves se não se tratasse da vida humana, valor primordial que é preciso proteger e promover. Toda a gente compreende bem isso, embora alguns procurem razões para, mesmo contra toda a evidência, servir a esta causa também com o aborto. De facto, não deixa de causar estranheza vermos como, ao mesmo tempo, crescem indiscriminadamente os protestos contra a pena de morte e contra toda e qualquer forma de guerra, por um lado; e a reivindicação de liberalizar o aborto, quer inteiramente, quer sobre a base de indicações cada vez mais alargadas, por outro. Ora, a Igreja tem consciência bastante de que faz parte da sua vocação defender o homem contra tudo aquilo que poderia porventura corrompê-lo ou rebaixá-lo, para ficar calada pelo que concerne a tal assunto: por isso mesmo que o Filho de Deus se fez homem, não existe homem algum que não seja seu irmão quando à humanidade, e que não seja chamado a tornar-se cristão, a receber d'Ele a salvação.

2. Em numerosos países, os poderes públicos que resistem a uma liberalização das leis respeitantes ao aborto são objecto de fortes pressões que intentam levá-los a isso mesmo. Essa liberalização, diz-se, não violaria a consciência de ninguém, pois deixar-se-ia cada um livre para seguir a própria opinião, impedindo simultaneamente quem quer que fosse deimpor a outrem o seu pensar. O pluralismo ético é reinvindicado como a consequência normal do pluralismo ideológico. E no entanto, existe uma grande diferença entre um e outro, porque a acção atinge mais depressa os interesses de outrem do que a simples opinião; além disso nunca se pode invocar a liberdade de opinião para lesar os direitos dos outros, especialmente o seu direito à vida.

3. São numerosos os leigos cristãos, em especial médicos, bem como as associações de pais e de mães de família, os homens políticos ou personalidades que ocupam lugares de responsabilidade, que têm reagido energicamente contra esta campanha de opinião. Mas sobretudo um bom número de Conferências Episcopais, e de Bispos isoladamente por própria iniciativa, julgaram oportuno recordar aos fiéis, sem margem para ambiguidades, a doutrina tradicional da Igreja [1] . Esses documentos, cuja convergência é algo que impressiona, põem admiravelmente em realce a atitude, a um tempo humana e cristã, de respeito pela vida. Aconteceu, no entanto, que alguns deles têm deparado, aqui e além, com reservas ou até mesmo com a contestação.

4. Encarregada de promover e de defender a fé e a moral na Igreja Universal,[2] a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé propõe-se vir recordar a todos os fiéis estes ensinamentos, nas suas linhas essenciais. Ilustrando, assim, a unidade da Igreja, confirmará, com a autoridade própria da Santa Sé, aquilo que os Bispos em boa hora empreenderam. E, ao fazê-lo, conta que todos os fiéis, incluindo mesmo aqueles que possam ter-se sentido abalados pelas controvérsias e pelas opiniões novas, compreendam que não se trata de opor uma opinião a outras, mas sim de transmitir-lhes uma doutrina constante do Magistério supremo, que expõe a norma dos costumes, sob a luz da fé [3] . É óbvio, portanto, que a presente Declaração implica uma grave obrigação para as consciências dos fiéis [4] . E praza a Deus, por ela, iluminar também todos os homens que procuram, com inteireza de coração, « praticar a verdade » (Jo. 3, 21).

II. 
À LUZ DA FÉ

5. « Deus não fez a morte, nem se alegra que pereçam os vivos » (Sab. 1, 13). É certo que Deus criou seres que não têm senão uma duração limitada e que a morte física não pode estar ausente do mundo dos viventes corporais. Mas, aquilo que é querido, antes de mais nada, é a vida; e, no universo visível, tudo foi feito em vista do homem, imagem de Deus e coroamento do mundo (cfr. Gén. 1, 26-28). No plano humano, foi « por inveja do demónio que a morte entrou no mundo » (Sab. 2, 24); introduzida pelo pecado, ela permanece a ele ligada; ela é dele o sinal e o fruto. No entanto, ela não poderá triunfar. Confirmando a fé na ressurreição, o Senhor proclamará no Evangelho que « Deus ... não é o Deus dos mortos, mas dos vivos » (Mt. 22, 32-33); e a morte, bem como o pecado, será vencida, definitivamente, pela ressurreição em Cristo (cfr. 1 Cor. 15, 20-27). Compreende-se assim que a vida humana, mesmo sobre a terra, seja algo precioso. Insuflada pelo Criador,[5] é por Ele que ela será reassumida (cfr. Gén. 2, 7; Sab. 15, 11). Ela permanece sob a sua protecção; o sangue do homem clama por Ele (cfr. Gén. 4, 10) e Ele pedirá contas desse sangue, « porque o homem foi criado à semelhança de Deus » (Gén. 9, 5-6). 0 mandamento de Deus é formal: « Não matarás » (Ex. 20, 13). Ao mesmo tempo que é um dom, a vida é também uma responsabilidade: recebida como um « talento » (cfr. Mt. 25, 14-30), ela deve ser posta a render. Para a fazer frutificar, muitas são as tarefas que ao homem se apresentam neste mundo, às quais ele não deve furtar-se; mas, de uma maneira mais profunda ainda, para o cristão, pois ele sabe bem que a vida eterna para ele depende daquilo que, com a graça de Deus, fizer durante a sua vida sobre a terra.

6. A tradição da Igreja sempre considerou a vida humana como algo que deve ser protegido e favorecido, desde o seu início, do mesmo modo que durante as diversas fases do seu desenvolvimento. Opondo-se aos costumes greco-romanos, a Igreja dos primeiros séculos insistiu na distância que, quanto a este ponto, separa deles os costumes cristãos. No livro chamado Didaché diz-se claramente: « Tu não matarás, mediante o aborto, o fruto do seio; e não farás perecer a criança já nascida » [6] . Atenágoras frisa bem que os cristãos têm na conta de homicidas as mulheres que utilizam medicamentos para abortar; ele condena igualmente os assassinos de crianças, incluindo no número destas as que vivem ainda no seio materno, « onde elas já são objecto da solicitude da Providência divina » [7] . Tertuliano não usou, talvez, sempre a mesma linguagem; contudo, não deixa também de afirmar, com clareza, o princípio essencial: « É um homicídio antecipado impedir alguém de nascer; pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está ainda para nascer. É já um homem aquele que o virá a ser » [8] .

7. E no decorrer da história, os Padres da Igreja, bem como os seus Pastores e os seus Doutores, ensinaram a mesma doutrina, sem que as diferentes opiniões acerca do momento da infusão da alma espiritual tenham introduzido uma dúvida sobre a ilegitimidade do aborto. É certo que, na altura da Idade Média em que era opinião geral não estar a alma espiritual presente no corpo senão passadas as primeiras semanas, se fazia uma distinção quanto à espécie do pecado e à gravidade das sanções penais. Excelentes autores houve que admitiram, para esse primeiro período, soluções casuísticas mais suaves do que aquelas que eles davam para o concernente aos períodos seguintes da gravidez. Mas, jamais se negou, mesmo então, que o aborto provocado, mesmo nos primeiros dias da concepção fosse objectivamente falta grave. Uma tal condenação foi de facto unânime. De entre os muitos documentos, bastará recordar apenas alguns. Assim: o primeiro Concílio de Mogúncia, em 847, confirma as penas estabelecidas por Concílios precedentes contra o aborto; e determina que seja imposta a penitência mais rigorosa às mulheres « que matarem as suas crianças ou que provocarem a eliminação do fruto concebido no próprio seio » [9] . O Decreto de Graciano refere estas palavras do Papa Estêvão V: « É homicida aquele que fizer perecer, mediante o aborto, o que tinha sido concebido »[10] . Santo Tomás, Doutor comum da Igreja, ensina que o aborto é um pecado grave contrário à lei natural [11] . Nos tempos da Renascença, o Papa Sisto V condena o aborto com a maior severidade [12] . Um século mais tarde, Inocêncio XI reprova as proposições de alguns canonistas « laxistas », que pretendiam desculpar o aborto provocado antes do momento em que certos autores fixavam dar-se a animação espiritual do novo ser [13] Nos nossos dias, os últimos Pontífices Romanos proclamaram, com a maior clareza, a mesma doutrina. Assim: Pio XI respondeu explicitamente às mais graves objecções;[14] Pio XII excluiu claramente todo e qualquer aborto directo, ou seja, aquele que é intentado como um fim ou como um meio para o fim;[15] João XXIII recordou o ensinamento dos Padres sobre o carácter sagrado da vida, « a qual, desde o seu início, exige a acção de Deus criador » [16] . E bem recentemente, ainda, o II Concílio do Vaticano, presidido pelo Santo Padre Paulo VI, condenou muito severamente o aborto: « A vida deve ser defendida com extremos cuidados, desde a concepção: o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis » [17] . O mesmo Santo Padre Paulo VI, ao falar, por diversas vezes, deste assunto, não teve receio de declarar que a doutrina da Igreja « não mudou; e mais, que ela é imutável »[18] .

III. 
E TAMBÉM À LUZ DA RAZÃO

8. O respeito pela vida humana não se impõe apenas aos cristãos; a razão basta de per si para o exigir, baseando-se na análise daquilo que é e deve ser uma pessoa. Constituído por uma natureza racional, o homem é um sujeito pessoal, capaz de reflectir sobre si próprio e de decidir dos seus actos e, portanto, do seu próprio destino; é livre. É, por consequência, senhor de si; ou melhor dito — porque ele se perfaz a si mesmo no tempo — ele dispõe dos meios para se tornar tal e nisso está o seu dever. Imediatamente criada por Deus, a sua alma é espiritual e, por isso, imortal. Mais: ele está aberto para Deus e não encontrará senão n'Ele a sua plena realização. No entanto, ele vive na comunidade dos seus semelhantes e nutre-se da comunicação interpessoal com eles, no indispensável meio social. Em face da sociedade e dos outros homens, cada pessoa humana se possui a si mesma, possui a sua vida e os seus diversos bens, à maneira de direito; e isso exige-o da parte de todos os outros em relação a si uma estrita justiça.

9. Contudo, a vida temporal que se leva neste mundo não se identifica com a pessoa; esta tem como seu próprio um nível de vida mais profundo, que não poderá acabar. Sim, a vida temporal é um bem fundamental, aqui na terra condição de todos os demais bens; mas existem valores mais altos, pelos quais poderá ser lícito e mesmo até necessário expor-se ao perigo de a perder. Numa sociedade de pessoas, o bem comum é para cada uma delas uma finalidade que deve servir, à qual há-de saber subordinar o seu interesse particular. Mas esse bem comum não constitui o seu fim último; e, neste sentido, é a sociedade que está ao serviço da pessoa, porque esta não consumará o seu destino senão em Deus. Ela não pode ser subordinada definitivamente senão a Deus. Nunca se pode tratar um homem como simples meio de que porventura se dispusesse para alcançar um fim mais elevado.

10. Sobre os direitos e os deveres recíprocos da pessoa e da sociedade, compete à moral esclarecer as consciências e ao direito determinar e organizar os encargos. Ora existe um conjunto de direitos que a sociedade não tem que conceder, porque eles lhe são anteriores; mas que ela tem por dever preservar a fazer valer: tais são a maior parte daqueles que hoje em dia se denominam os « direitos do homem » e que a nossa época se gloria de ter formulado.

11. O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Ela tem outros bens e alguns deles são mais preciosos; mas este — da vida — é fundamental, condição de todos os demais. Por isso, deve ele, mais do que qualquer outro, ser protegido. Não compete à sociedade, nem compete à autoridade pública, seja qual for a sua forma, reconhecer este direito a alguns somente e não a outros: toda a discriminação aqui é iníqua, quer se fundamente na raça, quer no sexo, quer na cor, quer, enfim, na religião. Não é o reconhecimento por outrem que constitui este direito: ele precede tal reconhecimento; mais: ele exige ser reconhecido e é estritamente injusto recusar reconhecê-lo.

12. Uma discriminação fundada sobre os diversos períodos da vida não será pois mais justificável do que outra qualquer. O direito à vida permanece na sua inteireza num velhinho, mesmo que este se ache muito debilitado; permanece num doente incurável, este não o perdeu. Não é menos legítimo numa criança que acaba de nascer do que num homem feito. Na realidade, o respeito pela vida humana impõe-se desde o momento em que começou o processo da geração. Desde quando o óvulo foi fecundado, encontra-se inaugurada uma vida, que não é nem a do pai, nem a da mãe, mas a de um novo ser humano, que se desenvolve por si mesmo. Ele não virá jamais a tornar-se humano, se o não for desde logo.

13. A esta evidência de sempre (absolutamente independente das discussões acerca do momento da animação),[19] a ciência genética moderna traz preciosas confirmações. Ela demonstrou, com efeito, que desde o primeiro instante se encontra traçado o programa daquilo que virá a ser este novo vivente: um homem, este homem indivíduo com as suas notas características já bem determinadas. A partir da fecundação, começou a aventura de uma vida humana, na qual cada uma das suas capacidades requer tempo, mesmo um tempo bastante longo, para eclodir e para se achar em condições de agir. O mínimo que se pode dizer é que a ciência actual, no seu estado mais evoluído, não dá apoio algum substancial aos defensores do aborto. De resto, não pertence às ciências biológicas dar um juízo decisivo sobre questões propriamente filosóficas e morais, como são a do momento em que se constitui a pessoa humana e a da legitimidade do aborto. Ora, sob o ponto de vista moral, isto é certo mesmo que porventura subsistisse uma dúvida concernente ao facto de o fruto da concepção ser já uma pessoa humana: é objectivamente um pecado grave ousar correr o risco de um homicídio. « É já um homem aquele que o virá a ser » [20] .

IV. 
RESPOSTA A ALGUMAS OBJECÇÕES

14. A lei divina e a razão natural excluem, portanto, todo o direito a matar directamente um homem inocente. No entanto, se as razões apresentadas para justificar um aborto fossem sempre manifestamente infundadas e destituídas de valor o problema não seria assim tão dramático.

A sua gravidade provém de que em alguns casos, talvez bastante numerosos, ao recusar o aborto se inflige dano pelo que respeita a bens importantes, que é normal terem-se muito a peito e que podem mesmo parecer, algumas vezes, prioritários. Não ignoramos estas grandes dificuldades: pode tratar-se de um grave problema de saúde, ou por vezes mesmo de vida ou de morte, para a mãe; pode ser o encargo que representa mais um filho, sobretudo quando existem boas razões para temer que ele virá a ser anormal ou gravemente defeituoso; pode ser, ainda, o peso de que se revestem, em diversos meios, as considerações de honra e de desonra, de baixar de nível social, etc. Mas deve-se afirmar de modo absoluto que jamais alguma destas razões poderá vir a conferir objectivamente o direito de dispor da vida de outrem, mesmo que esta esteja a começar; e, pelo que diz respeito à infelicidade futura da criança, ninguém, nem mesmo o pai ou a mãe, se podem substituir a ela, embora se encontre ainda no estado de embrião, para escolher, em seu nome, a morte de preferência à vida. Ela própria, na sua idade amadurecida, jamais virá a ter o direito de optar pelo suicídio; e enquanto não está ainda na idade de decidir por si própria menos ainda os seus próprios pais podem escolher para ela a morte. A vida é um bem demasiado fundamental, para poder ser posto assim em confronto com inconvenientes mesmo muito graves [21] .

15. O movimento de emancipação da mulher, na medida em que visa essencialmente libertá-la de tudo aquilo que represente discriminação injusta, está perfeitamente fundamentado [22].

Há, de facto, nas diversas formas de cultura, muito que fazer neste ponto; mas, não se pode mudar a natureza, nem subtrair a mulher, o mesmo sucedendo com o homem, aquilo que a natureza deles exige. Aliás, toda e qualquer liberdade, publicamente reconhecida, tem sempre como limites os direitos certos de outrem.

16. E importa dizer a mesma coisa no respeitante à reivindicação da liberdade sexual.

Se sob tal expressão se entendesse o domínio progressivamente alcançado, da razão e do amor verdadeiro, sobre o impulso dos instintos, sem depreciação do prazer, mas tendo-o na devida conta — e semelhante domínio, neste campo, é a única liberdade autêntica — não haveria nada a objectar, até porque uma tal liberdade assim acautelar-se-ia sempre, para não lesar a justiça. Se em contraposição, porém, com tal designação se entender que o homem e a mulher são « livres » para procurarem o prazer sexual até à saciedade, sem terem em consideração lei alguma, nem a ordenação essencial da vida sexual para os seus frutos de fecundidade,[23] então uma tal idéia nada tem de cristão; ela é mesmo indigna do homem. Em qualquer hipótese, ela não fundamenta direito algum a dispor da vida de outrem, ainda que ela se encontre embrionária, ou a suprimi-la. sob o pretexto de ela ser incómoda.

17. Os progressos da ciência abrem e continuarão a abrir cada vez mais à técnica, possibilidades de intervenções muito acuradas, cujas consequências, tanto no sentido do bem como no do mal, podem vir a ser muito graves.

Estamos perante conquistas do espírito humano, admiráveis em si mesmas, efectivamente; mas a técnica jamais poderá subtrair-se ao julgamento da moral, porque ela existe em função do homem e deve respeitar as suas finalidades. Da mesma forma que não se pode utilizar a energia nuclear para um fim qualquer, indiscriminadamente, assim também não se está autorizado a manipular a vida humana num sentido qualquer, não importa qual; o progresso da ciência deve estar ao serviço do homem para assegurar um melhor desabrochar das suas capacidades normais, para prevenir ou para curar doenças e, enfim, contribuir para o seu desenvolvimento pleno, o melhor possível. É verdade que a evolução das técnicas torna cada vez mais fácil o aborto precoce, mas a avaliação moral do mesmo não se modifica.

18. Sabe-se depois, qual a gravidade de que pode revestir-se para certas famílias e para alguns países o problema da regulação da natalidade.

Foi por isso mesmo que o último Concílio e, depois, a Encíclica Humanae vitae, de 25 de Julho de 1968, falaram de « paternidade responsável »[24] . O que se deve reafirmar com vigor, em continuidade com o que foi recordado pela Constituição pastoral do Concílio Gaudium et Spes, pela Encíclica Populorum Progressio e por outros documentos pontifícios, é que nunca, sob que pretexto for, o aborto pode ser utilizado, nem por uma família, nem pela autoridade pública, como um meio legítimo para a regulação da natalidade[25] . O lesar os valores morais é sempre, para o bem comum, um mal maior do que quaisquer inconvenientes de ordem económica ou demográfica.

V. 
A MORAL E O DIREITO

19. A discussão moral é acompanhada, um pouco em toda a parte, de graves debates jurídicos. Não há país algum cuja legislação não proíba e não castigue o homicídio. Muitos, para além disso, determinaram esta proibição e estas penas no caso especial do aborto provocado. Nos nossos dias, um vasto movimento de opinião demanda um liberação desta última interdição. Existe já uma tendência bastante generalizada que intenta conseguir que se restrinja o mais possível toda a legislação repressiva, sobretudo quando ela parece penetrar no domínio da vida privada. Retoma-se aqui, além disto, também a argumentação do pluralismo: se numerosos cidadãos, em particular os fiéis da Igreja católica, condenam o aborto, há muitos outros que o retêm lícito, ao menos como mal menor; porquê, então, impor-lhes que sigam uma opinião que não é a sua, sobretudo naqueles países onde constituam a maioria? Por outro lado, onde ainda existem, as leis que condenam o aborto demonstram-se de difícil aplicação: o delito tornou-se demasiado frequente, para que se possa castigar sempre com rigor, e os poderes públicos acham mais prudente fechar os olhos. No entanto, conservar uma lei que não se aplica, não se fará nunca, sem que isso prejudique a autoridade de todas as outras leis. E é necessário acrescentar que o aborto clandestino expõe as mulheres que ao mesmo recorrem aos maiores perigos, não apenas para a sua fecundidade futura, mas também muitas vezes para a sua própria vida. Mesmo que o legislador continue a considerar o aborto como um mal, não poderá ele propor-se restringir ao mínimo os seus prejuízos?

20. Estas razões e mais outras, ainda, que se aduzem de diversas partes, não são válidas para a legalização do aborto. É verdade que a lei civil não pode pretender abarcar todo o domínio da moral ou punir todas as faltas: ninguém lhe exige isso. Ela tem muitas vezes de tolerar aquilo que, em última análise, é o mal menor, para assim evitar um outro maior. É no entanto necessário ter em conta o que pode significar uma mudança de legislação. Muitos tomarão como uma autorização aquilo que não é mais, talvez, do que uma renúncia a castigar. Mais: no caso presente, esta renúncia parece mesmo incluir, pelo menos, que o legislador não considera já o aborto como um crime contra a vida humana, uma vez que, na sua legislação, o homicídio continua sempre a ser gravemente punido. É verdade que a lei não tem que resolver entre opiniões discordantes ou que impor uma em vez de outra. No entanto a vida da criança prevalece sobre toda e qualquer opinião: não se pode apelar pela a liberdade de pensamento para lh'a tirar.

21. A função da lei não é a de registar o que se faz; mas sim, a de ajudar a fazer melhor. É função do Estado, em qualquer hipótese; salvaguardar os direitos de cada um e proteger os mais fracos. Ser-lhe-á necessário, para tanto, corrigir muitos erros. A lei não está obrigada a sancionar tudo, mas ela não pode ir contra uma outra lei mais profunda e mais augusta do que toda a lei humana, a lei natural inscrita no homem pelo Criador, como uma norma que a razão discerne e se esforça por formular, que é necessário fazer mesmo esforço para compreender cada vez melhor, mas que é sempre mal contradizer. A lei humana pode renunciar a punir, mas não pode declarar honesto aquilo que porventura fosse contrário ao direito natural, porque uma tal oposição basta para fazer com que uma lei deixe de ser lei.

22. Deve ficar bem claro, em todo o caso, que seja lá o que for que as leis civis venham a estabelecer a este respeito, o homem não pode nunca submeter-se a uma lei intrinsecamente imoral; e esse é o caso precisamente daquela que admitisse em princípio a liceidade do aborto. Ele não pode participar numa campanha de opinião em favor da uma lei de tal género, nem dar-lhe a própria adesão. Ele não poderá, menos ainda, colaborar na sua aplicação. É inadmissível, por exemplo, que médicos ou enfermeiros se venham a encontrar em situações de se verem obrigados a cooperar, de maneira próxima, em abortos e de ter que escolher entre a lei de Deus e a sua situação profissional.

23. O que compete à lei, pelo contrário, é procurar levar por diante uma reforma da sociedade e das condições de vida em todos os ambientes, a começar pelos mais desfavorecidos, a fim de que se torne possível sempre e em toda a parte um acolhimento, digno do homem, a toda criança que vem a este mundo. Ajuda às famílias e às mães solteiras abonos garantidos aos filhos naturais e regulamentação conveniente da adopção: tem de ser promovida toda uma política positiva a fim de que possa haver sempre para o aborto uma alternativa concretamente possível e honrosa.

IV. 
CONCLUSÃO

24. Seguir a própria consciência, na obediência à lei de Deus, nem sempre é um caminho fácil; isso pode comportar sacrifícios e fardos dos quais importa não desconhecer o peso. É preciso, por vezes, heroísmo a fim de permanecer fiel às suas exigências. No entanto, deve ser proclamado claramente, ao mesmo tempo, que a via do verdadeiro desenvolvimento pleno da pessoa humana passa por esta fidelidade constante a uma consciência mantida na rectidão e na verdade; ademais, hão-de exortar-se todos aqueles que dispõem de meios para isso, a procurarem aliviar os fardos que esmagam ainda tantos e tantos homens e mulheres, tantas e tantas famílias e crianças, postas perante situações humanamente sem saída.

25. A avaliação de um cristão não pode restringir-se aos horizontes da vida aqui neste mundo; ele sabe que na vida presente se prepara uma outra, cuja importância é tal, que é segundo ela que importa julgar [26] . Sob este ponto de vista não existe aqui sobre a terra uma infelicidade que seja absoluta, nem mesmo a dor atroz de ter de criar um filho defeituoso. Tal é a mudança radical de valores anunciada pelo Senhor: « Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! » (Mt. 5, 5). Medir a felicidade pela ausência de sofrimentos e de misérias neste mundo é voltar as costas ao Evangelho.

26. Mas isso não quer dizer que se possa ficar indiferente a esses sofrimentos e a essas misérias. Todo o homem de coração e certamente todos os cristãos devem estar prontos para fazer o possível ao seu alcance para lhes dar remédio. É a lei da caridade, cujo primeiro cuidado deve ser sempre o de instaurar a justiça. Jamais se pode aprovar o aborto, mas é preciso algo mais: procurar sobretudo combater as causas do mesmo. Ora isso comporta uma acção política que constituirá em particular o campo da lei. Mas é preciso, ao mesmo tempo, agir no plano dos costumes, concorrer para tudo aquilo que pode ajudar as famílias, as mães, as crianças. Foram realizados progressos consideráveis pela medicina ao serviço da vida; é de esperar que eles irão ainda mais por diante, de acordo com a vocação do médico, que não é a de suprimir a vida, mas de a conservar e de a favorecer o melhor possível. É igualmente para desejar que se desenvolvam, mediante instituições adequadas para isso, ou na falta destas, pelo impulso da generosidade e da caridade cristã, todas as formas de assistência.

27. Não se actuará eficazmente no plano dos costumes, se não se lutar igualmente no plano das ideias. Não se pode nunca deixar expandir, sem a contradizer, uma maneira de ver, e, mais ainda, de sentir, que considere a fecundidade como uma desgraça. É verdade que nem todas as formas de civilização são igualmente favoráveis às famílias numerosas; estas encontram obstáculos de longe muito maiores numa civilização de tipo industrial e urbano. Assim, a Igreja, nestes últimos tempos, tem insistido na ideia de paternidade responsável, exercício de uma verdadeira prudência, humana e cristã. Esta prudência não seria nunca autêntica se não incluísse a generosidade; ela deve manter-se consciente da grandeza de uma tarefa que é cooperação com a Criador para a transmissão da vida, que dá à comunidade humana novos membros e à Igreja novos filhos. A Igreja de Cristo tem o cuidado fundamental de proteger e favorecer a vida. Ela pensa, obviamente, antes de mais, naquela vida que Cristo veio trazer à terra: « Eu vim para que os homens tenham a vida e a tenham em abundância » (Jo. 10, 10). Mas a vida provém de Deus, a todos os níveis em que ela se manifesta; e a vida corporal é para o homem o começo indispensável. Nesta vida sobre a terra, o pecado introduziu, multiplicou e tornou mais pesados o sofrimento e a morte; no entanto, Jesus Cristo, tomando sobre si o fardo dos mesmos, transformou-os: para quem acredita n'Ele, o sofrimento e a mesma morte tornam-se instrumentos de ressurreição. Por isso, São Paulo pôde dizer: « Eu estimo, efectivamente, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção alguma com a glória que há-de revelar-se em nós » (Rom. 8, 18); e fazendo uma comparação, pode-se acrescentar ainda com o mesmo Apóstolo: « Realmente, o leve peso da nossa tribulação do momento presente, prepara-nos além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória! » (2 Cor. 4, 17).

O Sumo Pontífice Paulo VI, na Audiência concedida ao infra-escrito Secretário da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 28 de Junho de 1974, ratificou, confirmou e mandou publicar a presente Declaração sobre o aborto provocado.

Dado em Roma, da Sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, a 18 de Novembro, na solenidade da Dedicação das Basílicas dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, no ano do Senhor de 1974.



Francisco Cardeal Seper 
Prefeito

Jerónimo Hamer 
Arcebispo titular de Lorium 
Secretário"


Fonte: Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé, Declaração Sobre o Aborto Provocado. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19741118_declaration-abortion_po.html

27 setembro 2016

O poder da oração comunitária.


Convido você a refletir sobre o poder da oração em comunidade, nas horas de provação. E, para isso, compartilho esta bela catequese de Papa Bento XVI:

"Hoje gostaria de meditar sobre o último episódio da vida de são Pedro, narrado nos Atos dos Apóstolos: o seu aprisionamento por vontade de Herodes Agripa e a sua libertação através da intervenção prodigiosa do Anjo do Senhor, na vigília do seu processo em Jerusalém (cf. Act 12, 1-17).
A narração é mais uma vez caracterizada pela oração da Igreja. Com efeito, são Lucas escreve: «Enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus instantemente por ele» (Act 12, 5). E, depois de ter deixado milagrosamente o cárcere, por ocasião da sua visita à casa de Maria, mãe de João chamado Marcos, afirma-se que «numerosos fiéis estavam reunidos a orar» (Act 12, 12). Entre estas duas anotações importantes que explicam a atitude da comunidade cristã diante do perigo e da perseguição, são narradas a detenção e a libertação de Pedro, que dura a noite inteira. A força da oração incessante da Igreja eleva-se até Deus e o Senhor ouve e realiza uma libertação impensável e inesperada, enviando o seu Anjo.
(...) Com efeito, narram os Atos dos Apóstolos: «De repente, apareceu o Anjo do Senhor e a masmorra foi inundada de luz, tocando-lhe no lado, e disse-lhe: “Ergue-te depressa”» (Act 12, 7). (...) Finalmente, o convite: «Cobre-te com a capa e segue-me» (Act 12, 8), faz ressoar no coração as palavras da chamada inicial de Jesus (cf. Mc 1, 17), repetida depois da Ressurreição no lago de Tiberíades, onde o Senhor diz duas vezes a Pedro: «Segue-me» (Jo 21, 19.22). É um convite premente ao seguimento: só vivemos a liberdade verdadeira se sairmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.
Gostaria de ressaltar também outro aspecto da atitude de Pedro no cárcere; com efeito, notemos que, enquanto a comunidade cristã reza com insistência por ele, Pedro «estava a dormir» (Act 12, 6). Numa situação tão crítica e de perigo sério, é uma atitude que pode parecer estranha, mas que ao contrário denota tranquilidade e confiança; ele confia em Deus, sabe que está circundado pela solidariedade e pela oração dos seus e abandona-se totalmente nas mãos do Senhor. Assim deve ser a nossa oração: assídua, solidária com os outros, plenamente confiante em relação a Deus, que nos conhece no íntimo e cuida de nós, a tal ponto que — diz Jesus — «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! Não temais, pois...» (Mt 10, 30-31). Pedro vive a noite do cativeiro e da libertação do cárcere como um momento do seu seguimento do Senhor, que vence as trevas da noite e liberta da escravidão das correntes e do perigo de morte. A sua libertação é prodigiosa, caracterizada por vários trechos descritos cuidadosamente: orientado pelo Anjo, não obstante a vigilância dos guardas, atravessa o primeiro e o segundo posto de guarda, até à porta de ferro que introduz na cidade: e a porta abre-se sozinha diante deles (cf. Act 12, 10). Pedro e o Anjo do Senhor percorrem juntos uma parte do caminho até que, voltando a si, o apóstolo se dá conta de que o Senhor realmente o libertou e, depois de ter meditado, vai à casa de Maria, mãe de Marcos, onde muitos dos discípulos estão reunidos em oração; mais uma vez, a resposta da comunidade à dificuldade e ao perigo é confiar em Deus, intensificar a relação com Ele.
Aqui, parece-me útil evocar outra situação difícil, que foi vivida pela comunidade cristã das origens. Fala-nos dela são Tiago na sua Carta.
Trata-se de uma comunidade em crise, em dificuldade, não tanto devido às perseguições, mas porque no seu interior há invejas e conflitos (cf. Tg 3, 14-16). E o apóstolo interroga-se acerca do motivo desta situação. Ele encontra duas razões principais: a primeira é deixar-se dominar pelas paixões, pela ditadura dos próprios desejos, pelo egoísmo (cf. Tg 4, 1-2a); a segunda é a falta de oração — «não pedis» (Tg 4, 2b) – ou a presença de uma oração que não se pode definir como tal — «Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para satisfazer os vossos prazeres» (Tg 4, 3). Segundo são Tiago, esta situação mudaria se a comunidade falasse totalmente unida com Deus, se rezasse realmente de modo assíduo e unânime. Com efeito, também o discurso sobre Deus corre o risco de perder a sua força interior e o testemunho esgota-se, se não forem animados, sustentados e acompanhados pela oração, pela continuidade de um diálogo vivo com o Senhor. Uma exortação importante inclusive para nós e para as nossas comunidades, quer pequenas, como a família, quer as mais vastas, como a paróquia, a diocese e a Igreja inteira. E isto faz-me pensar que rezavam nesta comunidade de são Tiago, mas rezaram mal, somente para satisfazer os próprios prazeres. Temos que aprender sempre de novo a rezar bem, a orar realmente, orientando-nos para Deus e não para o nosso próprio bem.
Ao contrário, a comunidade que acompanha o cativeiro de Pedro é uma comunidade que reza verdadeiramente, durante a noite inteira, unida. E a alegria que invade o coração de todos quando, inesperadamente, o apóstolo bate à porta é irreprimível. São a alegria e a admiração diante da obra de Deus que ouve. Assim, da Igreja eleva-se a oração por Pedro, e na Igreja ele volta para narrar «como o Senhor o tinha tirado da prisão» (Act 12, 17). (...)
Caros irmãos e irmãs, o episódio da libertação de Pedro, narrado por Lucas, diz-nos que a Igreja, cada um de nós, atravessa a noite da provação, mas é a vigilância incessante da oração que nos sustém (...) Com a oração constante e confiante, o Senhor liberta-nos das cadeias, guia-nos para atravessar qualquer noite de cativeiro que possa afligir o nosso coração, infunde-nos a serenidade do coração para enfrentar as dificuldades da vida, até a rejeição, a oposição e a perseguição. O episódio de Pedro mostra esta força da oração. E mesmo aprisionado, o apóstolo sente-se tranquilo, na certeza de que nunca está sozinho: a comunidade reza por ele, o Senhor está-lhe próximo; aliás, ele sabe que «a força de Cristo se manifesta plenamente na fraqueza» (2 Cor 12, 9). A oração constante e unânime é um instrumento precioso também para superar as provações que podem surgir ao longo do caminho da vida, porque o fato de estarmos profundamente unidos a Deus permite-nos estar também profundamente unidos aos outros. Obrigado!"1
Na próxima postagem veremos a relação entre oração e esperança.

Notas
1. Papa Bento XVI, Audiência Geral (9 de Maio de 2012). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2012/documents/hf_ben-xvi_aud_20120509.htm
2. Imagens
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"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12
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